Fonoteca Municipal do PortoFMP

Rádio Macau

André Santos

Percurso

19 Março 2021

A vida a acontecer
Nos primeiros lançamentos discográficos dos Rádio Macau, o álbum Rádio Macau (EMI, 1994) e o single A Vida Num Só Dia (EMI, 1995), habitam uma série de referências associadas ao dia e à noite nos títulos: Um Dia a Mais, A Noite, Bom-Dia Lisboa e a A Vida Num Só Dia. Em A Noite ouve-se Xana a cantar: Foi um dia igual aos outros / E os dias são sempre iguais. São dois versos que traduzem a urgência que a banda transmite na música que criou no início da carreira, saídos dos subúrbios de Lisboa (Algueirão), para habitar na capital e conseguir vencer, fazendo de tudo um pouco para sobreviver. Também são versos que impõem a vontade de mudar as coisas. Há um descontentamento com os dias serem sempre iguais. Há a vontade de mudar, moldar, um país que há menos de uma década tinha saído de uma ditadura. Os 1980s eram os anos para transformar Portugal. Xana conta a história desses dias da seguinte forma:

“Por vezes questiono-me como foi possível toda aquela sequência de eventos, a exigência que tínhamos de responder com aquela rapidez. Há o início de um caminho, que por vezes percorremos em linha reta sem grandes sobressaltos, outras vezes aos trambolhões, outras com alguma criatividade. Tudo o que se passou em 1983 e em 1984, a gravação do disco, a vivência em Lisboa, foi inesperado, rápido. Era a vida num só dia a acontecer.”

Os Rádio Macau queriam fazer as coisas acontecer. Gravaram duas músicas (Olhos De Água e A Malta Está Fixe) numa cassete numa sala de ensaios. Ainda em Algueirão, pegaram nas Páginas Amarelas, vieram de comboio para Lisboa e foram à editora mais próxima, a EMI/Valentim de Carvalho [VC], que ficava na Rua Nova do Almada, a passos da estação do Rossio, onde o comboio da linha de Sintra termina. Com eles só traziam uma cassete e queriam percorrer mais editoras nesse dia. Quando chegaram aos escritórios da EMI/VC, a rececionista pediu para deixarem lá a cassete. Flak disse que não podia ser, que só tinham uma cassete: “Ingenuamente, só tínhamos aquela cassete. Quando íamos a descer as escadas, alguém veio à porta e perguntou se éramos nós que tínhamos uma cassete para eles ouvirem. Pediu para subirmos. Ele ouviu a cassete. Era o Francisco Vasconcelos, na altura não sabíamos quem era. Devia ter mais três ou quatro anos do que nós, tinha cabelo comprido e estava de t-shirt. Perguntou se só tínhamos aquelas duas músicas, disse que gostou mais da primeira. Perguntou se tínhamos mais como aquela.”

Francisco Vasconcelos pediu mais canções. A banda não perdeu tempo, não visitou mais nenhuma editora nesse dia. Apanharam o comboio e voltaram para casa. Na altura, Emanuel Ramalho era o baterista da banda, tocava também com os Street Kids e foi no estúdio deles, no Estoril, que gravaram as canções (A Noite e Drugstore) que levaram, muito rapidamente, à Rua Nova do Almada: “Quando estávamos a descer a rua, vimos o Francisco a entrar no edifício. Dissemos que tínhamos mais duas canções. Pediu para voltar dali a uma hora. Quando subimos, estavam todos com um grande sorriso.”, conta Flak.

Estava feito. Pouco depois assinaram contrato e foram para os estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos. Francisco Vasconcelos produziu Rádio Macau e o seu irmão, Pedro, foi o técnico de som. Flak confessa que: “Puseram-nos algumas restrições no som. Queriam algo mais pop e nós tínhamos um lado mais sujo, underground. Não ficámos muito satisfeitos com o resultado final porque sentimos que nos limparam o som, tornaram-nos mais radio friendly. Também não gostavam do Ramalho a tocar bateria, porque tocava muitos pratos e tinha muitos timbalões. No estúdio, montaram-lhe um set de bateria só com uma tarola, um prato de choques e dois pratos. Estavam a restringi-lo. Era assim, na altura. Para gravarmos numa editora tão grande – e naquele estúdio – tínhamos de ceder às exigências da produção.”

Meses depois gravam o maxi-single A Vida Num Só Dia, com produção de Carlos Maria Trindade e com Tó Pinheiro da Silva como engenheiro de som: “A rapidez das coisas… entre 1982 e 1983 conseguimos um contrato, em 1984 estamos a gravar um disco. Fiz 18 anos em estúdio.”, conta Xana, assimilando o tempo, as datas e a rapidez com que tudo se passou. Algo só possível quando se é novo e o mundo, os dias, ainda estão dispostos a serem mudados: “Há a questão do imprevisível, que foi aceite por todos. É aceite quando somos muito novos. Fomos mais abertos ao inesperado do que quando nos tornámos mais adultos. E interiorizámos isso de uma forma muito autêntica. Queríamos fazer acontecer coisas. E isso era algo que existia não só nos Rádio Macau, mas com outros grupos. Foi um movimento que existiu naquela década em Lisboa. Sentia-se que as pessoas queriam fazer acontecer coisas. No meu entendimento, tinha a ver com o período que estávamos a viver em Portugal. O 25 de abril tinha acontecido há menos de dez anos e toda a cultura do país – não eram só os músicos, mas os pintores, cineastas, também – estava a querer exprimir-se. Todos queríamos contribuir para um outro país.”, conclui Xana.

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