25 Junho 2026
Entre a estreia de El Amor Brujo de Manuel de Falla e a trágica morte de Tina Muñoz-Barrull, em 1995, passaram-se oitenta anos. Durante esse período, o flamenco não só se consolidou como um dos maiores referentes para outras expressões musicais, como também foi capaz de se renovar e encontrar novas formas para dar voz à cultura cigana.
Um momento fulcral dessa renovação aconteceu em 1974, com o lançamento de um dos discos mais importantes no contexto da fusão do rock com o flamenco. Gipsy Rock foi o álbum de estreia do duo madrileno Las Grecas. Um LP que, na época, não foi prensado mais além das fronteiras espanholas, mas que constitui uma das peças-chave para compreender o caldo cultural que se vivia nos anos prévios ao fim da ditadura franquista.
O sucesso das irmãs Carmela e Tina começou, no entanto, uns meses antes do lançamento de Gipsy Rock, com um single que continha uma das canções mais bem sucedidas da época, em Espanha: Te estoy amando locamente. O disco de sete polegadas, prensado em Portugal no ano a seguir ao do seu lançamento original, continha no lado B Amma Immi, outra das canções que estaria incluída no LP de 1974. Ambos os casos são muito representativos da revolução que constituíram Las Grecas naquele contexto e que contou com a importante contribuição do guitarrista português Johnny Galvão (sim, o pai da locutora Ana Galvão). A distorção fuzz das guitarras de Galvão é aliás, juntamente com o uso exaustivo do Fender Rhodes e da percussão, o elemento mais distintivo da sonoridade que acompanha as irmãs Muñoz-Barrull.
Tal como no bailado de Manuel de Falla, o tema central destas canções é o amor. Mas claro, um amor, muitas vezes cantado em caló, que por um lado contém toda a mística e o obscurantismo da protagonista de El Amor Brujo, e que por outro reflete a realidade das relações sentimentais no seio da cultura romani, com as suas disputas familiares, traições e desilusões, mas também com ecos de vingança, emancipação e, como não, de agenciamento.
Em Portugal ainda se publicou Orgullo, outro single retirado de Gipsy Rock, com La Zarzamora como lado B. Nada que se compare ao sucesso que Las Grecas tiveram em Espanha com o seu álbum de estreia, que lhes deu fôlego para gravar mais três álbuns sem o mesmo impacto. Ou melhor, o impacto sentiram-no Carmela e sobretudo Tina a nível pessoal. Entre tentativas de suicidio e prisões, a vida das duas irmãs tornou-se numa verdadeira tragédia quinqui. Tina, vendo a fama e a riqueza escapar-lhe por entre os dedos, entregou-se ao consumo de heroína e, aos 23 anos, seria diagnosticada com esquizofrenia paranoide, condição que a levaria a ser internada várias vezes e até mesmo a tentar matar a própria irmã.
Como se de um sacrifício se tratara, a tragédia e morte de Tina carrega o peso da perfeição. Te estoy amando locamente e o resto das canções de Gipsy Rock foram o ponto de partida para muitos músicos que procuraram a fusão de linguagens musicais, incluindo o grande símbolo do flamenco Camarón de la Isla. E ainda hoje esta forma de amor embruxado está presente na música espanhola até ao flamenco de Rosalía.
Um momento fulcral dessa renovação aconteceu em 1974, com o lançamento de um dos discos mais importantes no contexto da fusão do rock com o flamenco. Gipsy Rock foi o álbum de estreia do duo madrileno Las Grecas. Um LP que, na época, não foi prensado mais além das fronteiras espanholas, mas que constitui uma das peças-chave para compreender o caldo cultural que se vivia nos anos prévios ao fim da ditadura franquista.
O sucesso das irmãs Carmela e Tina começou, no entanto, uns meses antes do lançamento de Gipsy Rock, com um single que continha uma das canções mais bem sucedidas da época, em Espanha: Te estoy amando locamente. O disco de sete polegadas, prensado em Portugal no ano a seguir ao do seu lançamento original, continha no lado B Amma Immi, outra das canções que estaria incluída no LP de 1974. Ambos os casos são muito representativos da revolução que constituíram Las Grecas naquele contexto e que contou com a importante contribuição do guitarrista português Johnny Galvão (sim, o pai da locutora Ana Galvão). A distorção fuzz das guitarras de Galvão é aliás, juntamente com o uso exaustivo do Fender Rhodes e da percussão, o elemento mais distintivo da sonoridade que acompanha as irmãs Muñoz-Barrull.
Tal como no bailado de Manuel de Falla, o tema central destas canções é o amor. Mas claro, um amor, muitas vezes cantado em caló, que por um lado contém toda a mística e o obscurantismo da protagonista de El Amor Brujo, e que por outro reflete a realidade das relações sentimentais no seio da cultura romani, com as suas disputas familiares, traições e desilusões, mas também com ecos de vingança, emancipação e, como não, de agenciamento.
Em Portugal ainda se publicou Orgullo, outro single retirado de Gipsy Rock, com La Zarzamora como lado B. Nada que se compare ao sucesso que Las Grecas tiveram em Espanha com o seu álbum de estreia, que lhes deu fôlego para gravar mais três álbuns sem o mesmo impacto. Ou melhor, o impacto sentiram-no Carmela e sobretudo Tina a nível pessoal. Entre tentativas de suicidio e prisões, a vida das duas irmãs tornou-se numa verdadeira tragédia quinqui. Tina, vendo a fama e a riqueza escapar-lhe por entre os dedos, entregou-se ao consumo de heroína e, aos 23 anos, seria diagnosticada com esquizofrenia paranoide, condição que a levaria a ser internada várias vezes e até mesmo a tentar matar a própria irmã.
Como se de um sacrifício se tratara, a tragédia e morte de Tina carrega o peso da perfeição. Te estoy amando locamente e o resto das canções de Gipsy Rock foram o ponto de partida para muitos músicos que procuraram a fusão de linguagens musicais, incluindo o grande símbolo do flamenco Camarón de la Isla. E ainda hoje esta forma de amor embruxado está presente na música espanhola até ao flamenco de Rosalía.


