Mahler: Rückert-Lieder - Fonoteca Municipal do Porto

Fonoteca Municipal do PortoFMP

GMP

Mahler: Rückert-Lieder

Teresa Nunes

Resenha

30 Julho 2026

Christa Ludwig, Orquestra Filarmónica de Berlim e Herbert von Karajan
Estamos no verão de 1901. Gustav Mahler isola-se, mais uma vez, na sua cabana de composição em Wörthersee, na Áustria, para compor os Rückert Lieder. Era assim que o compositor concebia o ato de criar: em isolamento, entregue à natureza.

Gustav Mahler foi um dos mais importantes compositores austríacos do final do romantismo, deixando um legado sinfónico e vocal assinalável. Na sua música convivem, muitas vezes dentro da mesma peça, melodias fúnebres e melodias de raiz folclórica — como acontece, por exemplo, em “Wenn mein Schatz Hochzeit macht”, do ciclo Canções do viajante. É por isso frequente dizer-se que a sua música vai do sublime ao banal, havendo mesmo quem lhe reconheça, por esse motivo, uma forte presença de humor, ironia e nonsense.

Os Rückert Lieder são 5 canções para voz média e orquestra ou piano, que Mahler escreveu separadamente, mas, que, ao longo do tempo, se tornaram um ciclo por serem cantadas. Quatro das canções foram orquestradas pelo compositor e a quinta, Liebst du um Schönheit, depois da sua morte por Max Puttmann. Este conjunto de canções trata temáticas como a contemplação, espiritualidade, o amor e a condição humana. O compositor nem sequer escolheu uma ordem para serem interpretadas.

Friedrich Rückert, um dos mais importantes poetas do romantismo alemão, era um dos poetas preferidos de Gustav Mahler, tornando famosas as suas palavras ao compor para o ciclo Kindertotenlieder (canções para as crianças mortas) - poemas que Rückert escreveu após a morte de dois dos seus filhos - e que Mahler escreveu antes da perda da sua filha, numa premonição da sua própria vida.

Neste disco, uma gravação de 1975 da Deutsche Grammophon em LP, que também inclui também Canção da Terra, Herbert von Karajan, maestro conhecido por ser muito meticuloso e perfeccionista, é o diretor musical. A outra protagonista é a mezzo-soprano alemã Christa Ludwig, que fez carreira dos anos 40 aos anos 90. Dotada de uma voz quente e aveludada, com uma grande qualidade dramática, Ludwig cantou ópera, canção e oratória, tornando-se numa das cantoras mais importantes do séc. XX. Karajan e Ludwig tinham uma parceria com mais de duas décadas de colaboração, tendo partilhado palcos em todo o mundo, assim como dezenas de gravações de óperas e canções de compositores como Strauss, Wagner, Beethoven, Mahler que se tornaram grandes referências.

Não existindo uma ordem pré-definida pelo compositor, em princípio a ordem que aparece no disco terá sido decidida pelo maestro e diretor artístico Herbert von Karajan.

Este é um ciclo intimista onde o cantor canta quase de um para um com o ouvinte na sala de concerto e algumas das melodias destas canções integram motivos melódicos na 4a e a 5a sinfonias de Mahler.

1. Ich bin der Welt abhanden gekommen – “Estou perdido para o mundo”

Foi a sua amiga e confidente Natalie Bauer-Lechner quem revelou que era assim que Mahler se descrevia a si próprio: "perdido para o mundo". Esta confissão revela a sua volatilidade e introspecção, e é também o que torna esta canção tão pessoal para o compositor. É uma das canções mais intensas, com um lirismo, e intensidade introspectiva que de alguma forma fala sobre resignação mas também sobre uma profunda paz inatingível.

“Estou perdido para o mundo
Com o qual desperdicei tanto tempo
Há tanto que ele nada sabe de mim
Que bem pode crer que estou morto!
Não me importa em nada
Que me tome por morto
Nada mais posso dizer sobre isso,
Pois de fato morri para o mundo.
Morri para o tumulto do mundo,
E repouso num lugar sereno!
Vivo só no meu céu,
No meu amor, na minha canção!”

Neste abandono do mundano, abandono de si próprio para as coisas do mundo, Mahler fala de si próprio escrevendo também musicalmente uma canção com características camerísticas e alguns solos, e cuja melodia podemos também encontrar na 4.ª sinfonia, no 3º movimento claramente influenciado por esta canção, principalmente no solo do corne inglês “Ich leb' allein in meinem Himmel...". Também na 5.ª Sinfonia no Adagietto podemos encontrar motivos melódicos desta canção. Posteriormente à morte do compositor, foi escrita versão coral desta canção, que se tornou muito conhecida.

2) Liebst du um Schönheit – “Se amas a beleza não me ames”

Esta canção foi adicionada mais tarde em 1902 e é uma canção de amor dedicada à sua esposa Alma Mahler. Só foi orquestrada em 1916 depois da sua morte por Max Puttmann.

“Se amas pela beleza
Oh, não me ames!
Ama o sol,
Ele tem cabelos de ouro!
Se amas pela juventude,
Oh, não me ames!
Ama a primavera,
Que é jovem a cada ano!
Se amas pelas riquezas,
Oh, não me ames!
Ama a sereia,
Ela tem muitas pérolas brilhantes!
Se amas pelo amor,
Oh sim, ama-me!
Ama-me sempre, Eu te amarei para sempre!”

Uma declaração de amor também ela retratada musicalmente com melodias intensas e com um legatto e fraseado redondo à volta das palavras “Liebe mich immer,

Dich lieb' ich immerdar!” (Ama-me sempre, Eu te amarei para sempre!).

3) Blicke mir nicht in die Lieder – “Não olhes para as minhas canções”

Fala-nos da preservação da criação artística antes de ser mostrada ao mundo. O poeta diz-nos como não vemos as abelhas durante o processo de construção dos favos de mel também a obra artística deve ser preservada até poder ser partilhada. Natalie diz-nos que Mahler poderia estar a descrever o seu próprio processo nesta canção, tanto que até poderia ter sido ele a escrever estas palavras.

“Não olhes para as minhas canções!
Baixo os meus olhos,
Como se apanhado em flagrante.
Eu próprio não me atrevo
A observar o seu crescimento
A tua curiosidade é traição!
As abelhas, quando constroem os favos,
Também não deixam que as olhem,
Nem elas próprias ficam a olhar.
Quando os ricos favos de mel
São trazidos por elas à luz do dia,
Então serás o primeiro a ler!”

Musicalmente temos uma textura nos instrumentos, e ritmo que fazem lembrar o trabalho e zumbido das abelhas. A tonalidade maior e a urgência rítmica e as notas dissonantes na melodia fazem-nos lembrar um ambiente pastoral e leve.

4) Ich atmet’ einen linden Duft – “Eu respirei uma agradável fragrância’

Esta canção fala-nos do aroma suave de um ramo de tília que alguém trouxe para o quarto. Musicalmente, a canção floresce através da utilização mínima de instrumentos, como forma de simplicidade. A canção fala-nos mais do gesto da pessoa que trouxe o ramo de tília, um gesto simples de amor, que entra como um perfume, sem se impor. Descreve a alegria que alguém sente na presença da sua amada sem necessitar de expressar uma única palavra.

“Senti um suave perfume.
No quarto estava um ramo de tília,
Uma oferta carinhosa
De uma mão querida.
Quão suave era o perfume da tília!
Quão suave é o perfume da tília!
O raminho de tília
Colheste com delicadeza;
Respiro levemente
No perfume da tília —
O suave perfume do amor.”

5) Um Mitternacht – “À meia noite”

Muda o tom completamente para um ambiente noturno e grave. Esta canção fala-nos da impotência humana perante o universo, da própria existência e da morte. Provavelmente por ser tão diferente de todas as outras, terá Karajan decidido colocá-la no final. O poeta fala sobre um sentimento de desolação que o assalta na hora da meia-noite. Depois de contemplar os sofrimentos da humanidade, entrega todo o poder em Deus. Para Mahler, isto deve ter sido uma canção profundamente significativa. A escuridão da meia-noite despertava sempre nele emoções poderosas.
Mahler escolheu uma instrumentação completamente diferente, utilizando sopros e harpa na orquestração.

"À meia-noite
Fiquei desperto
E ergui os olhos ao céu;
Nenhuma estrela da multidão de astros
Me sorriu
À meia-noite.
À meia-noite
Lancei meu pensamento
Para as escuras fronteiras.
Nenhum pensamento luminoso
Me trouxe consolo
À meia-noite.
À meia-noite
Prestei atenção
Aos batimentos do meu coração;
Um único pulso de dor
Estava aceso
À meia-noite.
À meia-noite
Travei a batalha,
Ó humanidade, dos teus sofrimentos;
Não pude resolvê-los
Com meu poder
À meia-noite.
À meia-noite
Coloquei o poder
Em tuas mãos!
Senhor sobre a morte e a vida,
Tu nos vigias
À meia-noite!"

Musicalmente temos uma atmosfera escura e misteriosa conferida pelos sopros em contraponto com a voz, que pinta o ambiente desta hora noturna e o comenta através de grandes melodias que completam o discurso da voz. Quando chegamos a um momento onde se diz que o poeta não conseguiu resolver os sofrimentos do mundo e se entrega nas mãos do divino a música muda, numa construção para um auge onde deixamos de ter contraponto e passamos a ter uma escrita mais isorrítmica, com dinâmicas mais fortes como exaltação da divindade.

Os Rückert-Lieder têm o poder de nos deixar em silêncio — entregues à contemplação da nossa própria existência, da nossa própria alma. 

voltar

Porto.