Fonoteca Municipal do PortoFMP

Vou dar de beber à alegria

Clara Araújo

Resenha

11 Novembro 2020

Fadista, atriz e empresária, assim era Hermínia Silva.
Podia ser uma mera curiosidade o ouvinte saber das atividades paralelas da fadista, mas por ter sido Hermínia uma pessoa tão versátil e com tantos talentos, é que o seu fado não soa como os outros. O público que procurava Hermínia nos palcos lisboetas, fosse na revista ou na sua casa de fados Solar da Hermínia, encontrava uma fadista de voz ligeira, com um humor sarcástico e uma facilidade para o improviso que dificilmente ouviriam noutras casas de fado.

Dos encontros no Solar da Hermínia ficaram não só as histórias, mas também as gravações, entre elas os 7” Vou dar de beber à alegria e Uma lição de folclore, onde os fados invulgarmente alegres e satíricos de Hermínia se unem com as guitarras do conjunto de Jorge Fontes.

Assim, é o fado Vou dar de beber à alegria que dá nome ao EP editado pela Decca na segunda metade dos anos 60. O original de Alberto Janes Vou dar de beber à dor - ou Mariquinhas - que depressa relembramos na voz de Amália Rodrigues, sofre uma reviravolta com a letra de Eduardo Damas, e é a própria Mariquinhas quem nos recebe em vez de um sujeito lingrinhas.

Com Favas contadas começa o lado B do 7” e todo o encanto e singularidade da maneira de cantar de Hermínia transparece na história de Chico Marujo, um marinheiro que nem pela sua amada consegue deixar o mar. Anda o fado a brincar comigo é também uma história de amor, uma que surgiu cedo na vida de Hermínia e que permanece até aos dias de hoje através do seu legado.

Comigo o fado brincou
Desde muito pequenina
Eu cantei e ele gostou
E tornou-se a minha sina


Hermínia Silva podia ter seguido inúmeras carreiras, mas a canção dos bairros de Lisboa em que nasceu e a vontade de subir aos palcos fizeram dela uma artista completa. Vou dar de beber à alegria é um registo das singularidades de Hermínia, uma fadista capaz de inovar sem virar costas à tradição.
 

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