Fonoteca Municipal do PortoFMP

Uma tradição ao piano

Clara Araújo

Percurso

04 Novembro 2020

Pianista, compositor e pedagogo, Vianna da Motta, nascido na segunda metade do século XIX, formou uma geração de pianistas cujos frutos são visíveis actualmente. Estudou música desde muito cedo, dizendo-se que compôs a sua primeira peça com apenas cinco anos. Aos catorze anos mudou-se para Berlim para estudar piano e composição com os irmãos Scharwenka. Em Weimar, anos mais tarde, foi um dos últimos alunos de Franz Liszt, que o influenciou não só como pianista, mas também como compositor.

Das várias peças que escreveu para piano, as Cenas portuguesas, compostas numa fase mais tardia e tipicamente associada ao nacionalismo, recuperam melodias do folclore português mantendo elementos virtuosísticos próprios do romantismo em que se insere. No disco José Vianna da Motta – Piano Solo Works, publicado em 1985 pela editora Marco Polo, o seu discípulo Sequeira Costa interpreta as Cenas portuguesas com uma clareza e precisão que com certeza deixaria o seu mestre orgulhoso. Sequeira Costa, que nos deixou em Fevereiro de 2019, ficou conhecido pela sua presença em competições internacionais enquanto pianista e jurado, sendo o fundador do prestigiado Concurso Vianna da Motta.

Não é de estranhar que grandes pianistas tenham surgido desta escola, já que descende de uma longa tradição pianística: “Beethoven, que ensinou Karl Czerney, que foi professor de Franz Liszt, que por sua vez ensinou Vianna da Motta, eu, seu discípulo, e, a seguir a mim, Artur Pizarro”, tal como menciona Sequeira Costa numa entrevista à agência Lusa em 2008.

O Conservatório Nacional de Lisboa foi uma peça essencial na continuação desta escola. Em 1917 Vianna da Motta regressa a Portugal depois da Primeira Guerra Mundial o ter obrigado a mover-se de Berlim para Genebra. Assumindo o cargo de director do Conservatório Nacional de Lisboa em 1919, reformou, com a colaboração de Luís de Freitas Branco, o ensino que aí se praticava, modernizando os programas e métodos pedagógicos. Este cargo foi posteriormente assumido pela sua aprendiza Helena Sá e Costa, que continuaria o legado de Vianna da Motta não só em Lisboa mas também no Porto, no conservatório fundado pelo seu avô, Bernardo Valentim Moreira de Sá.

Falar do ensino do piano em Portugal é falar de Helena Sá e Costa, pedagoga, pianista e memorável anfitriã da sociedade musical portuense. Filha da pianista Leonilda Moreira de Sá e do pianista e compositor Luís Costa, a sua ligação a Vianna da Motta começa muito antes das aulas de piano, tal como a seguinte carta dirigida ao seu pai o indica:

Meu caro amigo,
M.o lhe agradeço a sua amável lembrança e envio-lhe as minhas canções portuguesas (para quê os germanismos, que são “Lieder” senão “Canções”?).
Quanto à peça de piano, a que mais interessa é a Balada. Se quiser executar mais alguma, lembro o Adeus, minha terra, ou o 3º Improviso. Diga-me se os tem, caso contrário mandar-lhos-ei.
Os meus melhores cumpr.os a sua mulher e beijinhos aos seus talentosos filhinhos.

J. Vianna da Motta



O seu contexto familiar confere-lhe uma proximidade única aos compositores que interpreta. A sua interpretação das Cachoeiras da serra de Cenários ou Roda o vento nas searas das Telas Campesinas, peças compostas pelo seu pai, denotam uma familiaridade muito própria.
Ao longo da sua carreira formou uma vasta geração de pianistas incluindo Pedro Burmester, Adriano Jordão, Sofia Lourenço, Alfredo Cerquinho e Margarida Magalhães Sousa.

Mas nem todos os discípulos de Vianna da Motta enveredaram pelo ensino. Com uma carreira internacional de destaque, Nella Maissa foi uma das maiores divulgadoras da música clássica portuguesa, incluindo na sua discografia a obra integral para piano de João Domingos Bomtempo. A coleção, dividida em sete volumes e editada por A voz do dono, foi gravada ao longo de cinco anos, entre Outubro de 1978 e Janeiro de 1983, tornando-se num registo duplamente histórico – as obras de Domingos Bomtempo e a interpretação de Maissa.

Italiana de nascimento, fez o curso de Direito, mas acabou por escolher a música. Sob a ameaça do regime fascista, instala-se em Lisboa com o seu marido de nacionalidade portuguesa, Renato Maissa. À Itália só regressava no Verão, depois de a guerra terminar.
Nunca deu aulas, dedicava todo o seu tempo ao estudo, talvez por isso só tenha abandonado os palcos aos 94 anos com um concerto na Casa da Música onde interpretou compositores que marcaram a sua carreira: Fernando Lopes Graça, Armando José Fernandes, João Domingos Bomtempo e Frédéric Chopin.

O domínio da técnica e o rigor artístico de Vianna da Motta, aliados ao seu vasto conhecimento literário e filosófico, marcaram de forma muito intensa o seu ensino. A procura de ligações com as restantes artes e o aperfeiçoamento contínuo do artista deram origem a uma escola pianística que podemos ainda hoje reconhecer nos palcos nacionais e internacionais.

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