Fonoteca Municipal do PortoFMP

Tabanka Djaz

André Forte

Resenha

12 Fevereiro 2021

Os Tabanka Djaz são nomes incontornáveis da história da Guiné-Bissau, país filho de Amílcar Cabral, mas cuja cultura sente o desamparo da falta de interesse etnográfico de Portugal. Este desprezo, quando aliado às crises pós-independência, desemboca numa falta de documentação que descodifique a sua música e riqueza singular. O gumbé, diz-se, é fruto da dinâmica de Gamboa, o famoso bairro de Bissau onde etnias, regressos e migrações se encontravam numa singular dinâmica cultural. O resultado é um encontro rítmico entre a África Ocidental e os andamentos latinos e caribenhos, com um requinte melódico singular para quem descentraliza influências e as canaliza numa expressão crioulizada.

O quarteto de Bissau cresceu com a afirmação do gumbé no país, acompanhando a ascensão dos astros nacionais Super Mama Djombo com uma proximidade singular (conta-se que Juvenal Cabral, baixista e membro fundador dos Tabanka Djaz, sobrinho de Amilcar Cabral, assistia aos ensaios de Mama Djombo ainda enquanto criança). Proximidade que se ouve no disco, na sua desenvoltura e no seu distanciamento de certos fetichismos que ainda assolam a música tradicional africana.

Teclados proeminentes, linhas de baixo fortes, melodiosas e atrevidas no virtuosismo, envoltos numa produção clara e moderna, sem os ruídos do tempo ido e da falta de condições que elevam o caráter colecionista em detrimento do valor artístico da peça. O disco homónimo e de estreia dos Tabanka Djaz reflete as aspirações do grupo, que se lançou para estúdio na sequência de uma digressão pelos Estados Unidos, ainda sem um reportório para atestar o seu talento.

Ainda assim, que não sobrem dúvidas: da pura festa extravagante de teclados sobre ritmos infernais à interpretação à la Gamboa do slow e alternativa física à criação de calor humano (a proximidade dos corpos); tudo isso e o que o gumbé permite criar entre estes extremos. Estas coordenadas sentem-se naquilo que viria a ser apenas um primeiro passo dos ícones guineenses, ainda no ativo e a trilhar possibilidades para as sonoridades crioulas.

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