Fonoteca Municipal do PortoFMP

S. João

Armando Sousa

Resenha

17 Junho 2021

Lenita Gentil
Instalado em Canidelo, na cidade de Vila Nova de Gaia, o emissor da sociedade radiofónica Emissores do Norte Reunidos emitia rotativamente, na mesma frequência, a programação de quatro estações emergentes. Uma solução encontrada nos anos cinquenta para enfrentar a descentralização das emissões radiofónicas portuenses, que até então estavam concentradas na Portuense Rádio Clube. Foi precisamente nos microfones dos Emissores do Norte Reunidos, na Rua D. João IV, que uma muito jovem Lenita Gentil cantou pela primeira vez para a rádio.

Maria Helena Gentil do Carmo nasceu na Marinha Grande e cedo se mudou para o Porto com a sua família. Aqui, o seu pai mantinha uma grande amizade com Resende Dias, irmão mais velho de Júlio Resende e maestro responsável pela divulgação de muitas das grandes vozes do cançonetismo português através da rádio. Quando o maestro portuense ouviu Lenita cantar com apenas 14 anos, inscreveu-a no seu programa Serões para Trabalhadores. A voz de Lenita Gentil rapidamente se tornou popular e a necessidade de a gravar, urgente.

Não é casual, portanto, que este primeiro registo da cantora marinhense, seja uma homenagem à grande festa popular do Porto: o São João. Das quatro marchas (três compostas por Resende Dias) que compõem este EP da Alvorada, o vigor juvenil da sua voz exprime o caráter festivo e pueril da celebração sanjoanina. Os símbolos tradicionais, ainda hoje presentes no nosso imaginário, como o cravo, o alho-porro, o manjerico ou as fogueiras, são celebrados em Cantiga de S.João e Dá-lhe, dá-lhe, rapariga, com a cantoria popular e o encontro na diversão despreocupada pelas ruas. Também em Balões de amor, da autoria do Maestro Sousa Galvão, as desilusões e os desenganos amorosos desaparecem com a chama que os eleva no céu, renovando os desejos do coração, como os descritos em Prece a S. João.

Depois deste disco, a carreira de Lenita Gentil, dividida entre o fado e a canção popular, foi prolífica e marcada por participações nos grandes festivais da canção portuguesa, mas as referências ao Porto e ao São João nunca faltariam na sua discografia.

Na contracapa do disco pode-se ler que estas “quatro canções exprimem bem a eterna juventude da festa sanjoanina nortenha, que transforma o «fácies» de uma cidade, toma conta das almas e dos corações do povo, faz esquecer idades, afasta a tristeza”.

A festa é precisa.

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