Fonoteca Municipal do PortoFMP

Rey Kana Murry

 André Forte

Resenha

12 Agosto 2021

Ramiro Naka
Autêntico camaleão da Guiné Bissau, Ramiro Naka cedo se afirmou como mais do que um cantor de gumbé, a música nascida da convergência de ritmos afrolatinos nos bairros de Bissau. Com um robusto catálogo e uma vida além-fronteiras produtiva, tanto na Europa como na Bahia do Brasil, Naka revelou-se como músico e compositor, mas também como ator, autor, pintor e agitador cultural, tendo promovido vários eventos culturais na Guiné Bissau. Estes seriam dados irrelevantes, não fosse a variedade de pigmentos da sua expressão artística ouvir-se, em alto e bom som, em Rey Kana Murry, disco disponível no acervo da Fonoteca Municipal do Porto.

Ao longo das viagens de quatro faixas prensadas em cada um dos dois lados da rodela de vinil, Ramiro Naka expande-se em várias formas de gumbé, do eletrizado por ritmos de grandes tambores ao mais esparso, melódico e movido a dedilhados de guitarra em namoro com doces arranjos de voz. O intérprete salta do crioulo para o português com a mesma agilidade com que se passeia por sons caribenhos, a evocar o reggae (ouça-se Afrika Bu N’hani), ou setentrionais, esticando as possibilidades do ritmo guineense até às sonoridades mais típicas do sul do continente (Testemunha atesta isto mesmo).

Nas faixas de abertura de cada um dos lados do disco, Palo Bonito e N’ba Luta, o andamento afrolatino de Bissau impõe-se, num jogo de elementos de percussão, em desafio entre tambores e melodias cortadas por ritmos intensos. Já em Mamay Sá, falam mais alto as melodias, com as guitarras brilhantes a conduzir a dança, e em Testemunha sobressaem os teclados, com acordes a sintetizar a canção em rasgos de alegria.

A curiosidade do disco passa pelo toque de Bonga Kwenda na produção e mistura (detalhe que talvez explique a fotografia em modo atleta na capa, uma improvável alusão ao passado de velocista de Barceló de Carvalho? Só os próprios o poderão dizer), o colosso da música de Angola e um dos nomes maiores do semba além das latitudes de Cabinda e Moçâmedes. É, de resto, um contributo que pode justificar a abordagem pan-africana de Naka a Rey Kana Murry, em que o gumbé prevalece, mas é tocado além da sua estilização, atrevendo-se a ir buscar o solo tuareg para guitarra elétrica aqui e ali, os arranjos harmónicos mais típicos do Golfo e das expressões a sul, como se insinua em Maimbó. Um exercício de descentralização que o próprio Bonga faria na sua carreira — já todos ouvimos Sodade tanto pela voz da saudosa Cesária, como pela do cantor angolano.

Rey Kana Murry é um disco tão válido na diáspora como na origem, com elementos para provocar vários movimentos de anca sem detrimento do próximo, e com a voz de Naka, elástica sobre todos os andamentos, ora grave, ora alta, a aveludar a audição.

voltar

Porto.