Fonoteca Municipal do PortoFMP

My Favorite Things

José Carlos Fernandes

Resenha

05 Maio 2021

O musical The Sound of Music, o derradeiro da dupla Richard Rodgers & Oscar Hammerstein II, estreado em 1959, teve um sucesso estrondoso, e nos anos seguintes houve muita gente a cantarolar a canção My Favorite Things, uma ingénua lista de coisas reconfortantes (gotas de chuva em rosas e bigodes em gatinhos/ chaleiras de cobre reluzente e quentes luvas de lã) em que a personagem Maria diz pensar quando as perspetivas são lúgubres.

Embora o jazz tivesse o hábito de se apropriar de canções de musicais da Broadway, My Favorite Things não seria das escolhas mais óbvias e pareceria ainda mais improvável para um dos músicos mais audaciosos do jazz de então. John Coltrane que, na segunda metade da década de 1950, ganhara reputação nos grupos de Miles Davis e Thelonious Monk, entrara numa nova fase da sua carreira ao assinar contrato com a Atlantic, para a qual gravara, em 1959, o álbum Giant Steps, muito bem recebido pela crítica. Em abril de 1960, Coltrane deixou definitivamente o grupo de Davis e passou a consagrar-se exclusivamente ao seu próprio grupo, que, após ensaios com diferentes músicos, assumiu em outubro de 1960 uma formação próxima da que seria o seu “classic quartet”, com o pianista McCoy Tyner, o contrabaixista Steve Davis e o baterista Elvin Jones (a peça que faltava, Jimmy Garrison, assumiria o posto de contrabaixista em 1962).

As sessões de 21, 24 e 26 de outubro de 1960 no estúdio da Atlantic produziram abundante material, que seria repartido por quatro discos, My Favorite Things (editado em 1961), Coltrane Jazz (1961), Coltrane Plays the Blues (1962) e Coltrane’s Sound (1964), os dois últimos lançados à revelia de Coltrane, que entretanto transitara para a Impulse!. O mais célebre dos quatro – e da discografia de Coltrane na Atlantic, onde rivaliza com Giant Steps – é My Favorite Things e parte da proeminência de que goza está na versão de 13’41 de extensão da canção My Favorite Things, em que o saxofonista usa a melodia e a estrutura harmónica da canção como um mero pretexto para improvisações de grande liberdade e ousadia. Esta longa faixa tem também a particularidade de ser a primeira gravação em que Coltrane troca o habitual saxofone tenor pelo saxofone soprano, instrumento a que viria a recorrer frequentemente nos anos seguintes (e que figura na capa de My Favorite Things). É também nesta faixa que se tornam pela primeira vez evidentes as explorações de Coltrane no domínio das tradições musicais orientais e africanas: a valsa convencional da canção de Rodgers & Hammerstein converte-se numa pulsação hipnótica e obsessiva e há traços de música indiana nas melodias das improvisações.

O álbum inclui também versões escorreitas dos standards Ev’ry Time We Say Goodbye, Summertime e But Not For Me, mas foi a faixa My Favorite Things que consolidou a perceção de Coltrane como um dos grandes inovadores do jazz. O álbum tornou-se num dos mais populares de Coltrane e em 1998 ultrapassou meio milhão de exemplares vendidos, uma marca excecional para um disco de jazz. Claro que fora do universo restrito do jazz, a canção My Favorite Things é recordada não na versão de Coltrane mas na que Julie Andrews canta na versão cinematográfica do musical The Sound of Music, estreada em 1965.

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