Fonoteca Municipal do PortoFMP

Mr. Wollogallu

 André Santos

Resenha

22 Abril 2021

Mundos possíveis
Em 1991, um tal de Mr. Wollogallu surge nas prateleiras das lojas de discos portuguesas. A carência de pistas sobre esta figura tosca, sentada como se estivesse a um piano, a olhar para uma banheira, evoca a memória do cavalo com um balão de banda-desenhada vazio de Plux Quba (Ama Romanta, 1988), o outro álbum em que o nome Nuno Canavarro (tocou nos Street Kids e nos Delfins) surge na capa. As referências visuais importam, ambas as capas pouco dizem sobre os universos que se encontram na música. E, embora Mr. Wollogallu seja um disco partilhado com Carlos Maria Trindade (Corpo Diplomático, Heróis do Mar e Madredeus), todo o peso da mística Nuno Canavarro está lá.

Ao contrário de Plux Quba, um ovni imediato, onde estranheza e ingenuidade batem no génio, a música de Mr. Wollogallu precisou de sair do seu contexto para finalmente ser entendida. Por outras palavras, passados trinta anos, entende-se e ouve-se melhor esta colaboração entre Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro do que no início da década de 1990. A proximidade com a música ambiental, bem como o jazz, feita no Japão na altura é estonteante; ou como existem aqui raízes de alguma música digital que saciou o apetite pelo mundo virtual na última década do século XX.

Feito com calma, num estúdio caseiro, durante o ano de 1990, Mr. Wollogallu expõe em treze temas a tranquilidade, partilha e assimilação de que os músicos viveram durante esse tempo. Embora no álbum as partes de cada músico estejam divididas (um lado do vinil para cada), com sete músicas associadas a Carlos Maria Trindade e as restantes a Nuno Canavarro, ambos participaram ativamente em todo o processo. Em alguns temas é claramente percetível como um habita no esqueleto do outro, como em Guiar, associada a Carlos Maria Trindade, e, do outro lado, Blu Terra ou Antica/Burun creditada a Nuno Canavarro.

À distância, em Mr. Wollogallu habita música que permite pensar para a frente. Até imaginar uma exploração possível do “quarto mundo” de Jon Hassell. Não é um álbum à frente do seu tempo, pelo contrário, é um que pertence – e bem – ao seu tempo. O tempo, ou sair do seu contexto, permite perceber que as ideias nele presente não se esgotaram ali, no seu tempo. Saíram para o futuro e hoje podem ser ouvidas na música de Oneohtrix Point Never ou de James Ferraro.

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