Fonoteca Municipal do PortoFMP

Heaven Up Here

Diogo Duarte

Resenha

02 Junho 2021

Echo & The Bunnymen
Há quarenta anos, a 30 de maio de 1981, Echo & the Bunnymen (EatB) lançavam Heaven Up Here, o segundo álbum da banda e aquele em que consolidou o estatuto de “meninos queridos” da imprensa musical britânica. Na sombra dos The Beatles e de Bill Shankly (célebre treinador do Liverpool), EatB não se acanhava com as promessas de ser a next big thing a sair de Liverpool. Afinal, nas palavras de Bill Drummond, o místico e megalómano agente que se confunde com a história da banda (posteriormente mais conhecido como um dos mentores dos The KLF), antes de saberem tocar uma nota que fosse em condições os EatB carregavam a pretensão de ser “a maior banda do mundo”.

Heaven Up Here confirmava que o impulso de destruição do rock que moveu muitas das bandas do punk e do pós-punk não constituía um dos mandamentos de EatB. No álbum sobressaía um espírito rock mais tradicional em detrimento da experimentação musical e destacavam-se influências mais canónicas e mais devedoras das paisagens norte-americanas do que das britânicas, nomeadamente The Velvet Underground e The Doors. A comparação com a banda de Jim Morrison foi sempre desconfortável para o vocalista Ian McCulloch, que chegou a afirmar preferir os ABBA, mas a referência é incontornável em algumas faixas, como a homónima do álbum (e mais subtil noutros casos: a música All my colours teve como primeiro título “Zimbo”, a misteriosa palavra repetida no refrão que não é mais que uma corruptela de Jimbo, alter ego de Jim Morrison). Nas letras algo crípticas de McCulloch, a melancolia existencial invocava o individualismo do pós-punk, mas seguia uma toada mais espiritual e alheia à angst urbana, à decadência industrial ou ao frenesi consumista.

Um dos aspetos mais significativos de Heaven Up Here foi o de ter colocado definitivamente no passado a caixa de ritmos que conduzia a banda nas suas primeiras aparições e gravações. Pela primeira vez, um baterista de carne e osso, Pete de Freitas, integrava todo o processo de composição rítmica da banda (Crocodiles já contou com de Freitas em estúdio, mas muitas das músicas eram anteriores à sua entrada). A escassez de pratos de choque e a abundância de timbalões – a recordar Kenny Morris, o primeiro baterista de Siouxsie and the Banshees que marcaria, também, o estilo de Joy Division – conjugavam-se singularmente com os riffs soltos com que a guitarra de Will Sergeant ceifava as músicas e com a envolvência do baixo de Les Pattinson. Em Heaven Up Here, com a combinação plena dos ingredientes que construíram os melhores momentos da história de EatB, o ambiente simultaneamente inquietante e envolvente da música dos britânicos encontrava uma nova maturidade.

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