Fonoteca Municipal do PortoFMP

Handel: Messiah

José Carlos Fernandes

Resenha

24 Março 2021

Interpretação do Choir of Christ Church Cathedral Oxford e da Academy of Ancient Music, dirigidos por Christopher Hogwood
A estreia em Londres, em janeiro de 1741, de Deidamia, marcou o fim da carreira de George Frideric Handel como compositor e empresário de ópera italiana. O interesse do público britânico pelo género estava em declínio há uma década e Handel começara a desviar o seu talento para as oratórias em língua inglesa – e a oratória Messiah, em que começou a trabalhar em julho de 1741 e que estrearia em abril de 1742, em Dublin, lograria um sucesso tal que Handel ficou convencido de que esta era a via a seguir e não mais voltou à ópera. Após o êxito em Dublin, Messiah estreou em Londres no Convent Garden Theatre, em março de 1743, e teve reposições (em versões ajustadas aos cantores e circunstâncias) em 1745, 1749 e 1750. Esta última teve lugar no Foundling Hospital, um lar para órfãos, que passou a apresentar a obra todos os anos, até à morte de Handel, em 1759.

Esta longevidade de Messiah já era pouco vulgar numa obra do período barroco, mas tornou-se ainda mais excecional ao manter-se popular após o desaparecimento do seu criador. Na verdade, a obra ganhou ainda mais visibilidade ao longo do século XVIII, sendo tocado em múltiplas ocasiões e empregando recursos corais e instrumentais cada vez mais vastos, sobretudo a partir de 1784, quando uma homenagem ao compositor na Abadia de Westminster contou com 525 cantores e instrumentistas. A voga dos Messiahs monumentais enraizou-se e em 1857, no Great Handel Festival, no Crystal Palace de Londres, os efetivos ascenderam a 2000 cantores e 500 instrumentistas.

Só com o advento da “interpretação historicamente informada” (HIP) se deu um regresso às partituras, efetivos, instrumentos e práticas da época do compositor. A primeira gravação de Messiah a seguir os preceitos da HIP teve lugar em 1979, foi dirigida por Christopher Hogwood e deu origem a este disco. Christopher Hogwood (1941-2014), um dos pioneiros da abordagem HIP na Grã-Bretanha, assina aqui um Messiah de referência, que recorre à versão da partitura empregue na reposição de 1754 no Foundling Hospital e assenta na Academy of Ancient Music, no coro de rapazes da Christ Church Cathedral (Oxford) e num quinteto de solistas com Judith Nelson, Emma Kirkby, Carolyn Watkinson, Paul Elliott e David Thomas. O registo sonoro é transparente e detalhado (excepcional até, para um registo datado de 1979) e justificou que em 2015 a Decca o reeditasse no formato audiófilo Blu-ray Pure Audio.

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