Fonoteca Municipal do PortoFMP

Gesualdo: Feria Sexta

José Carlos Fernandes

Resenha

28 Janeiro 2021

Responsoria et alia ad Officium Hebdomadae Sanctae spectantia
Quando, em 1960, Igor Stravinsky, fascinado com o “vanguardismo” harmónico de Carlo Gesualdo, decidiu prestar-lhe homenagem arranjando para orquestra de câmara três dos seus madrigais tardios, sob o título Monumentum pro Gesualdo di Venosa ad CD annum, o compositor italiano estava há muito mergulhado no olvido. A obscuridade em torno de Gesualdo era tal que até a data atribuída ao seu nascimento estava equivocada, e a homenagem quadricentenária que Stravinsky lhe pretendeu fazer estava seis anos adiantada. Hoje sabe-se que Gesualdo nasceu em 1566, numa família nobre – a mãe era sobrinha do papa Pio IV, dois tios eram arcebispos – que juntara recentemente aos seus títulos e possessões o principado de Venosa, no reino de Nápoles.
Gesualdo parece ter tido desde cedo a música como interesse central: rodeou-se de uma accademia de músicos e compositores, e tão absorvido ficou por este mundo que descurou os deveres conjugais para com Maria d’Avalos, uma prima com quem se casara em 1586, o que poderá explicar que esta tenha buscado consolo nos braços de Fabrizio Carafa, duque de Andria. Don Carlo podia não dar a devida atenção à esposa, mas isso não mitigou o ultraje que a traição lhe causou e, na noite de 16 para 17 de Outubro de 1590, surpreendeu os amantes em flagrante e assassinou-os.

Este duplo homicídio acabou por se tornar no facto mais saliente da biografia de Gesualdo, ofuscando, muitas vezes, a sua notável contribuição para a música, através de seis livros de madrigais (1594-1611), duas colecções de Sacrae Cantiones (1603) e a colecção de Responsoria et alia ad Officium Hebdomadae Sanctae spectantia (1611), consistindo em 27 responsórios a seis vozes para a Semana Santa, complementados por um Benedictus e um Miserere. Na verdade, há quem interprete a música de Gesualdo, sobretudo as dissonâncias e as linhas tortuosas do V e VI Livros de Madrigais, à luz deste crime sangrento e do remorso que terá atormentado o compositor. Os Responsoria não são tão harmonicamente ousados quanto os madrigais dos Livros V e VI, do mesmo ano, mas incluem passagens de arrepiante expressividade e dissonâncias surpreendentes, que reforçam o carácter sombrio e angustiado dos textos sobre os últimos dias de Cristo.

No início da década de 1970, Gesualdo começava a despertar a atenção do meio musical e a Harmonia Mundi já publicara os seis volumes de madrigais, na interpretação do Quintetto Vocale Italiano, e iniciara a gravação integral da música sacra do compositor pelo Deller Consort, de Alfred Deller, com nove responsórios da Quinta-Feira Santa. Em 1972, surgiu o presente disco, com os primeiros seis responsórios para Sexta-Feira Santa, numa interpretação a uma voz por parte (como convém a este tipo de composição) e que confiava a segunda voz mais aguda não a uma contralto mas a um contratenor: uma inovação que, à data, ainda fazia franzir muitas sobrancelhas. A versão dos Responsoria pelo Deller Consort não tem a subtileza e atmosfera da leitura que o Hilliard Ensemble registaria em 1990 (e que daria um empurrão decisivo ao movimento de recuperação da obra de Gesualdo), mas não deixa de ser um marco na história da música gravada.

voltar

Porto.