15 Maio 2025
Símbolo e instrumento político da construção da Europa
Não fosse a Marche en rondeau já um elemento simbólico do concurso e da Europa, a Ode à Alegria deveria tornar-se o hino do Festival Eurovisão da Canção.
O concurso, evento cultural de contato simbólico entre culturas europeias, criado, em 1956, como resultado dos esforços de unidade europeia iniciados no pós 2ª Guerra Mundial, constitui um símbolo e um instrumento político que visa a criação de uma identidade europeia transnacional (Spaziante, 2021, 188). Ao incorporar dinâmicas contrastantes, em que a comunidade europeia é constantemente trazida à vida como uma competição entre nações, o Festival Eurovisão da Canção exibe a sua natureza eminentemente política. Ao longo do tempo, este não foi apenas palco de uma agenda utópica que representa e constrói, alegoricamente, a ideia de Europa (Tragaki, 2013), mas também espaço em que as lutas culturais sobre os significados, fronteiras, limites, semelhanças e diferenças são encenadas (Fricker & Gluhovic, 2013, 3), refletindo e contribuindo para as transformações culturais, sociais e políticas.
Se em 2012, fruto da crise da dívida pública da zona Euro, o ceticismo com uma possível adesão à União Europeia se traduziu no envio da canção satírica Euro neuro pelo Montenegro, em 1990, a esperança neste projeto era cantada por Toto Cutugno da seguinte forma:
«Io e te, sotto lo stesso sogno
Insieme, unite, unite, Europe
E per te, donna senza frontiere
Per te, sotto le stesse bandiere
Io e te, sotto lo stesso cielo
Insieme, unite, unite, Europe»
«Tu e eu, sob o mesmo sonho
Juntos, unidos, unidos, Europa
E para ti, mulher sem fronteiras
Para ti, sob as mesmas bandeiras
Tu e eu, sob o mesmo céu
Juntos, unidos, unidos, Europa»
(tradução nossa)
Fazendo referência à assinatura planeada do Tratado de Maastricht, em 1992, que formaria a União Europeia e marcaria uma nova etapa no processo de criação de «uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa», Insieme: 1992 contém uma mensagem declaradamente política. Porém, tal não impediu a sua participação, nem, tampouco, a vitória, demonstrando que os resultados obtidos no certame oferecem uma janela para a política europeia (Dekker, 2007, 53).
Por outro lado, nesse mesmo ano, inúmeras foram as canções que aludiam à mudança no cenário político e social em todo o continente europeu – Frei zu leben (Livre para viver); Keine Mauern mehr (Acabaram-se os muros); e Brandenburger Tor (Portão de Brandenburgo). A alusão à queda do Muro de Berlim, ocorrida em novembro de 1989, evento profundamente fraturante na política europeia, ressoava numa Europa Ocidental que proclamava frequentemente os seus valores liberais, pacíficos e democráticos, em contraste com a repressão, barbárie e autoritarismo da Europa Oriental.
Todavia, a verdade é que, enquanto a divisão entre o leste e o oeste europeu ganhava força, o Festival Eurovisão da Canção e as democracias da Europa Ocidental, num claro ato político, acomodaram os regimes fascistas de Espanha e Portugal. Estreando-se, respetivamente, em 1961 e 1964, estes países irão participar com contestação apenas residual, com o caso mais flagrante a ocorrer no ano de estreia de Portugal, quando um protestante, membro do Group 61 invadiu o palco, apresentando um cartaz onde se lia «Boycott Franco & Salazar».
Apesar disso, o regime verá na participação no Festival Eurovisão da Canção uma oportunidade de melhorar a imagem fragilizada de Portugal devido à Guerra Colonial (Mangorrinha, 2015, 10). Não obstante, esta Guerra Colonial acabará a dar o mote à Revolução de Abril e à queda do regime fascista. Em 22 de março celebraram-se os 50 anos do momento em que, de cravo ao peito, Duarte Mendes, Capitão de Abril, subiu ao palco do Festival Eurovisão da Canção de 1975 para cantar:
«Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio»
Se a canção Madrugada plasma uma crítica profunda à Guerra Colonial e celebra «a gente que a si mesma se descobre», contendo um conteúdo lírico e performático de cariz político, em Portugal considerava-se que não tinha a ousadia política de outras canções, não representando uma rutura com o período ditatorial, mas, antes, mero resultado da imagem de país que se pretendia transmitir (Ribeiro, 2024, 67-69).
Por outro lado, a Espanha, durante o regime franquista, procurará legitimar o seu regime e enaltecer o país, o qual teve oportunidade de fazer com a organização da edição de 1969, após a vitória alcançada por Massiel, no ano anterior, com La La La. Apesar da cantora não ter sido a escolha da TVE para participar nessa edição, Joan Manuel Serrat exigiu cantar a canção em catalão – língua reprimida na ditadura franquista – o que não foi aceite pela emissora, alegando que o artista tentava dar significado político à sua participação. A imposição do castelhano como língua representante de Espanha – o catalão apenas se estreou em 2004 pela Andorra na canção Jugarem a estimar-nos – representou um posicionamento político que se estendeu ao regime que se instaurou após a transição democrática, cuja busca de unidade procurou retirar destaque a qualquer símbolo dos movimentos independentistas. Em oposição, em 1980, a Noruega envia a canção Sámiid ædnan, cuja letra aborda o movimento de autonomia do povo Sami no norte da Noruega, abordando a greve de fome de ativistas Sami ocorrida em 1979, no contexto do Alta conflict:
«Framførr tinget der dem satt, oj…
Hørtes joiken dag og natt, Sámiid ædnan
Joik har større kraft enn krutt, Sámiid ædnan»
«Em frente ao parlamento onde eles sentam, oy …
O yoik era ouvido dia e noite, Terra Sami
O yoik é mais forte que a pólvora, Terra Sami»
(tradução nossa)
Nessa edição de 1980, Marrocos irá ter a sua única participação, num ano em que Israel se encontrava ausente do concurso. Samira Bensaïd cantou Bitakat Hob:
«Ma feehash shmeys beyn el-alwan
W el-assl wahed, w el-kull ikhwan
Ma bghina hroub w la alam
Baghyin hayat kulha salam»
«Um lugar sem discriminação de cor
E a essência é uma só e somos irmãos uns dos outros
Não queríamos nem guerras nem dor
Queríamos uma vida cheia de paz»
(tradução nossa)
Esta mensagem de paz, dirigida a Israel e aos países árabes, obteve um fraco resultado, o que pode ter sido entendido como uma falta de apoio da comunidade internacional, resultando no abandono do país do Festival Eurovisão da Canção. Apesar da solidariedade entre as nações árabes ter ditado o abandono das diversas plataformas em que Israel estava envolvido, a Turquia estreou-se no certame em 1975. Face à invasão turca do Chipre, a Grécia optou por não competir, demonstrando as interconexões do político e do cultural. No ano seguinte, os papéis inverteram-se e a Turquia abandonou o Festival Eurovisão da Canção, tendo a Grécia aproveitado a sua participação para denunciar a destruição provocada pela invasão turca do Chipre, na canção Panaghia mou, panaghia mou, de Mariza Koch:
«Sto topo afto otan tha pate, oi-oi mana m'
Skines an thite, an thite sti sira
The tha 'ne camping yia turistes, oi-oi mana m'
Tha 'ne monaha, monaha prosfiyia
Panaya mu, Panaya mu, parigora ti karthia mu»
«Quando se vai àquele lugar, ó ó minha Mãe
E se vê, se vê tendas em fila
Não é um local de campismo para turistas, ó ó minha Mãe
Eles são apenas, apenas refugiados
Minha Senhora, minha Senhora, acalma o meu coração»
(tradução nossa)
A verdade é que, apesar do conflito armado em curso, a participação destes países não foi colocada em causa, o que não aconteceu em 1993, quando a RTS e a RTCG foram impedidas de ingressar na União Europeia de Radiodifusão (doravante EBU), em virtude das sanções impostas no seguimento da Guerra Civil Jugoslava. Nessa edição, vários países emergentes da dissolução da Jugoslávia estrearam-se no concurso, incluindo a Bósnia & Herzegovina, cujo capital se encontrava cercada desde a declaração de independência. Novamente, a canção reflete as circunstâncias políticas vividas:
«Sva bol svijeta je noćas u Bosni
Ostajem da bolu prkosim
I nije me strah stati pred zid
Ja znam da zapjevam, ja znam da pobijedim»
«Toda a dor do mundo esta noite está na Bósnia
Permaneço a desafiar o medo
Eu não tenho medo de ficar em frente ao muro
Eu consigo cantar, eu consigo vencer»
(tradução nossa)
Aquando do anúncio das votações, a estática da linha telefónica ressoou no auditório, que irrompeu em aplausos em apoio à Bósnia. Não obstante os resultados obtidos por Sva bol svijeta, de Fazla, não refletirem esse apoio, para os novos Estados anteriormente jugoslavos, participar no Festival Eurovisão da Canção era uma forma de conquistar um lugar no palco europeu e no processo de «tornar-se europeu» (Kavanagh, 2010).
Certo é que, em 2022, no seguimento da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, a esmagadora pontuação dada pelo televoto a Stefania dos Kalush Orchestra demonstrou o apoio massivo dado à Ucrânia neste contexto político. Tal já tinha sido evidente na edição de 2014, quando as Tolmachevy Sisters, representantes russas com a canção Shine, foram fortemente vaiados na arena, o que foi atribuído à anexação da Crimeia no início do ano, mas também às restrições dos direitos LGBTQIA+ na Rússia. Se a Eurovisão se afigura como arena de diplomacia cultural e de nation branding, oferecendo às nações uma plataforma de escala internacional que permite conquistar pessoas através da utilização da música como produto cultural, a Rússia e a Ucrânia, a partir de 2014, procuraram utilizar o certame como plataforma de diplomacia cultural, através de mensagens políticas implícitas (Welslau & Selck, 2024, 9-24). Enquanto a Rússia enviava canções sobre a paz, em contradição com as ações geopolíticas em curso, procurando criar a imagem de um país libertador, o enfoque da Ucrânia consistia em demonstrar uma cultura e identidade nacional própria, mas também denunciar as agressões da Rússia, o que foi bastante claro na canção 1944, de Jamala, vencedora do Festival Eurovisão da Canção de 2016:
«They kill you all and say
“We're not guilty, not guilty”
Where is your mind? Humanity cries
You think you are gods but everyone dies (…)
Yaşlığıma toyalmadım
Men bu yerde yaşalmadım»
«Eles matam todos e dizem:
"Não somos culpados, não temos culpa”
O que tu tens na cabeça? A humanidade chora
Vocês pensam que são deuses. Mas todos morrem (...)
Eu não pude desfrutar a minha juventude
Eu não pude viver neste lugar»
(tradução nossa)
De acordo com Bohlman (2007, 57), «as canções nacionais participam na construção da história, mobilizando agentes e atores históricos através da performance e reunindo as suas diversas partes para concretizar o panorama completo do passado, do presente e do futuro utópico». Aludindo à deportação dos tártaros da Crimeia, na década de 1940, pela URSS, a Ucrânia lança luz sobre a repressão por estes vivida após a anexação russa da Crimeia.
Certo é que não estávamos perante o primeiro conflito da Rússia com outro país participante, uma vez que, em 2008, tinha sido desencadeada a Guerra Russo-Georgiana, com repercussões na edição de 2009 do Festival Eurovisão da Canção, organizado pela Rússia. A Geórgia selecionou a canção We Don't Wanna Put In:
«Some people tell you the stories
To drag you down to the knees (…)
We don't wanna put in the negative move»
«Algumas pessoas contam-te histórias
Para vos colocarem de joelhos (...)
Nós não queremos dar um passo negativo»
(tradução nossa)
A enunciação acentuada das palavras «put in» foi vista como uma crítica velada ao Presidente da Rússia, pelo que a EBU solicitou que a letra da música fosse reescrita. Contudo, a Geórgia recusou fazê-lo e anunciou a sua retirada, alegando que a EBU estava sobre pressão russa. Por outro lado, a EBU foi incapaz de vislumbrar qualquer cariz político na performance realizada no intervalo da 1.ª semi-final, quando as t.A.T.u. se juntaram ao Aleksandrov Red Army Choir, para cantarem Not Gonna Get Us, num palco onde foram colocados um tanque e um avião militar.
Em 2022, após a invasão da Ucrânia, a EBU declarou que a Rússia teria permissão para participar na competição, alegando a natureza apolítica do evento. No entanto, acabou por recuar nesse posicionamento, após várias emissoras terem solicitado a retirado do país da competição – tendo, aliás, havido ameaças de desistência caso isto não ocorresse – sustentando que «em vista da crise sem precedentes na Ucrânia, a inclusão de uma inscrição russa no Concurso deste ano desacreditaria a competição».
Por fim, destaca-se que, após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023 e o posterior desencadeamento dos massacres contra o povo de Gaza por parte de Israel, esperava-se que os apelos para a sua exclusão do concurso lograssem obter sucesso, mas tal não sucedeu. Se, em 2009, Noa & Mira Awad cantaram There Must Be Another Way e, em 1983, aproveitando a realização do Festival Eurovisão da Canção em Munique, a 16 km de distância de Dachau – onde se encontra o primeiro campo de concentração da Alemanha Nazi, aberto em 1933 – Israel enviou a Ofra Haza com Hi:
«Shim'u, echai, ani od chai (…)
Ani od chai, chai, chai
Am Yisra'el chai
Ouçam, meus irmãos, eu ainda estou viva (...)
Eu estou viva, viva, viva
A Nação de Israel está viva»
(tradução nossa)
Em 2024, seria este Estado a iniciar um genocídio e a implementar estratégias propagandistas destinadas a transformar a sua imagem e branquear a mesma, nomeadamente através de uma campanha do Ministério das Relações Exteriores de Israel para aumentar a votação do público no concurso. Apesar da letra da canção original ter sido recusada, uma vez que se intitulava October Rain, o que seria uma violação do alegado carácter apolítico das canções, a alteração para Hurricane não impediu que a mesma fosse legitimada neste meio de comunicação de massas e, futuramente, cantada na sua versão original em concertos em Israel e nas Nações Unidas.
Em suma, poucas dúvidas restam que o Festival Eurovisão da Canção tem um caráter político: na seleção dos países participantes, no conteúdo lírico das canções, na língua cantada, nas performances, nas votações e até mesmo nos slogans das edições. O certame é sobretudo político na escolha do que se considera político. Os posicionamentos da EBU e das várias emissoras públicas oscilam ao sabor dos ditames nacionais e europeus, demonstrando as contradições entre «fatores políticos e ideais apolíticos» (Raykoff, 2007, 3). Resta saber: é esta a ideia de Europa que o Festival Eurovisão da Canção quer construir? Quantos poderão dizer «Shim'u, echai, ani od chai» no final disto?
O concurso, evento cultural de contato simbólico entre culturas europeias, criado, em 1956, como resultado dos esforços de unidade europeia iniciados no pós 2ª Guerra Mundial, constitui um símbolo e um instrumento político que visa a criação de uma identidade europeia transnacional (Spaziante, 2021, 188). Ao incorporar dinâmicas contrastantes, em que a comunidade europeia é constantemente trazida à vida como uma competição entre nações, o Festival Eurovisão da Canção exibe a sua natureza eminentemente política. Ao longo do tempo, este não foi apenas palco de uma agenda utópica que representa e constrói, alegoricamente, a ideia de Europa (Tragaki, 2013), mas também espaço em que as lutas culturais sobre os significados, fronteiras, limites, semelhanças e diferenças são encenadas (Fricker & Gluhovic, 2013, 3), refletindo e contribuindo para as transformações culturais, sociais e políticas.
Se em 2012, fruto da crise da dívida pública da zona Euro, o ceticismo com uma possível adesão à União Europeia se traduziu no envio da canção satírica Euro neuro pelo Montenegro, em 1990, a esperança neste projeto era cantada por Toto Cutugno da seguinte forma:
«Io e te, sotto lo stesso sogno
Insieme, unite, unite, Europe
E per te, donna senza frontiere
Per te, sotto le stesse bandiere
Io e te, sotto lo stesso cielo
Insieme, unite, unite, Europe»
«Tu e eu, sob o mesmo sonho
Juntos, unidos, unidos, Europa
E para ti, mulher sem fronteiras
Para ti, sob as mesmas bandeiras
Tu e eu, sob o mesmo céu
Juntos, unidos, unidos, Europa»
(tradução nossa)
Fazendo referência à assinatura planeada do Tratado de Maastricht, em 1992, que formaria a União Europeia e marcaria uma nova etapa no processo de criação de «uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa», Insieme: 1992 contém uma mensagem declaradamente política. Porém, tal não impediu a sua participação, nem, tampouco, a vitória, demonstrando que os resultados obtidos no certame oferecem uma janela para a política europeia (Dekker, 2007, 53).
Por outro lado, nesse mesmo ano, inúmeras foram as canções que aludiam à mudança no cenário político e social em todo o continente europeu – Frei zu leben (Livre para viver); Keine Mauern mehr (Acabaram-se os muros); e Brandenburger Tor (Portão de Brandenburgo). A alusão à queda do Muro de Berlim, ocorrida em novembro de 1989, evento profundamente fraturante na política europeia, ressoava numa Europa Ocidental que proclamava frequentemente os seus valores liberais, pacíficos e democráticos, em contraste com a repressão, barbárie e autoritarismo da Europa Oriental.
Todavia, a verdade é que, enquanto a divisão entre o leste e o oeste europeu ganhava força, o Festival Eurovisão da Canção e as democracias da Europa Ocidental, num claro ato político, acomodaram os regimes fascistas de Espanha e Portugal. Estreando-se, respetivamente, em 1961 e 1964, estes países irão participar com contestação apenas residual, com o caso mais flagrante a ocorrer no ano de estreia de Portugal, quando um protestante, membro do Group 61 invadiu o palco, apresentando um cartaz onde se lia «Boycott Franco & Salazar».
Apesar disso, o regime verá na participação no Festival Eurovisão da Canção uma oportunidade de melhorar a imagem fragilizada de Portugal devido à Guerra Colonial (Mangorrinha, 2015, 10). Não obstante, esta Guerra Colonial acabará a dar o mote à Revolução de Abril e à queda do regime fascista. Em 22 de março celebraram-se os 50 anos do momento em que, de cravo ao peito, Duarte Mendes, Capitão de Abril, subiu ao palco do Festival Eurovisão da Canção de 1975 para cantar:
«Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio»
Se a canção Madrugada plasma uma crítica profunda à Guerra Colonial e celebra «a gente que a si mesma se descobre», contendo um conteúdo lírico e performático de cariz político, em Portugal considerava-se que não tinha a ousadia política de outras canções, não representando uma rutura com o período ditatorial, mas, antes, mero resultado da imagem de país que se pretendia transmitir (Ribeiro, 2024, 67-69).
Por outro lado, a Espanha, durante o regime franquista, procurará legitimar o seu regime e enaltecer o país, o qual teve oportunidade de fazer com a organização da edição de 1969, após a vitória alcançada por Massiel, no ano anterior, com La La La. Apesar da cantora não ter sido a escolha da TVE para participar nessa edição, Joan Manuel Serrat exigiu cantar a canção em catalão – língua reprimida na ditadura franquista – o que não foi aceite pela emissora, alegando que o artista tentava dar significado político à sua participação. A imposição do castelhano como língua representante de Espanha – o catalão apenas se estreou em 2004 pela Andorra na canção Jugarem a estimar-nos – representou um posicionamento político que se estendeu ao regime que se instaurou após a transição democrática, cuja busca de unidade procurou retirar destaque a qualquer símbolo dos movimentos independentistas. Em oposição, em 1980, a Noruega envia a canção Sámiid ædnan, cuja letra aborda o movimento de autonomia do povo Sami no norte da Noruega, abordando a greve de fome de ativistas Sami ocorrida em 1979, no contexto do Alta conflict:
«Framførr tinget der dem satt, oj…
Hørtes joiken dag og natt, Sámiid ædnan
Joik har større kraft enn krutt, Sámiid ædnan»
«Em frente ao parlamento onde eles sentam, oy …
O yoik era ouvido dia e noite, Terra Sami
O yoik é mais forte que a pólvora, Terra Sami»
(tradução nossa)
Nessa edição de 1980, Marrocos irá ter a sua única participação, num ano em que Israel se encontrava ausente do concurso. Samira Bensaïd cantou Bitakat Hob:
«Ma feehash shmeys beyn el-alwan
W el-assl wahed, w el-kull ikhwan
Ma bghina hroub w la alam
Baghyin hayat kulha salam»
«Um lugar sem discriminação de cor
E a essência é uma só e somos irmãos uns dos outros
Não queríamos nem guerras nem dor
Queríamos uma vida cheia de paz»
(tradução nossa)
Esta mensagem de paz, dirigida a Israel e aos países árabes, obteve um fraco resultado, o que pode ter sido entendido como uma falta de apoio da comunidade internacional, resultando no abandono do país do Festival Eurovisão da Canção. Apesar da solidariedade entre as nações árabes ter ditado o abandono das diversas plataformas em que Israel estava envolvido, a Turquia estreou-se no certame em 1975. Face à invasão turca do Chipre, a Grécia optou por não competir, demonstrando as interconexões do político e do cultural. No ano seguinte, os papéis inverteram-se e a Turquia abandonou o Festival Eurovisão da Canção, tendo a Grécia aproveitado a sua participação para denunciar a destruição provocada pela invasão turca do Chipre, na canção Panaghia mou, panaghia mou, de Mariza Koch:
«Sto topo afto otan tha pate, oi-oi mana m'
Skines an thite, an thite sti sira
The tha 'ne camping yia turistes, oi-oi mana m'
Tha 'ne monaha, monaha prosfiyia
Panaya mu, Panaya mu, parigora ti karthia mu»
«Quando se vai àquele lugar, ó ó minha Mãe
E se vê, se vê tendas em fila
Não é um local de campismo para turistas, ó ó minha Mãe
Eles são apenas, apenas refugiados
Minha Senhora, minha Senhora, acalma o meu coração»
(tradução nossa)
A verdade é que, apesar do conflito armado em curso, a participação destes países não foi colocada em causa, o que não aconteceu em 1993, quando a RTS e a RTCG foram impedidas de ingressar na União Europeia de Radiodifusão (doravante EBU), em virtude das sanções impostas no seguimento da Guerra Civil Jugoslava. Nessa edição, vários países emergentes da dissolução da Jugoslávia estrearam-se no concurso, incluindo a Bósnia & Herzegovina, cujo capital se encontrava cercada desde a declaração de independência. Novamente, a canção reflete as circunstâncias políticas vividas:
«Sva bol svijeta je noćas u Bosni
Ostajem da bolu prkosim
I nije me strah stati pred zid
Ja znam da zapjevam, ja znam da pobijedim»
«Toda a dor do mundo esta noite está na Bósnia
Permaneço a desafiar o medo
Eu não tenho medo de ficar em frente ao muro
Eu consigo cantar, eu consigo vencer»
(tradução nossa)
Aquando do anúncio das votações, a estática da linha telefónica ressoou no auditório, que irrompeu em aplausos em apoio à Bósnia. Não obstante os resultados obtidos por Sva bol svijeta, de Fazla, não refletirem esse apoio, para os novos Estados anteriormente jugoslavos, participar no Festival Eurovisão da Canção era uma forma de conquistar um lugar no palco europeu e no processo de «tornar-se europeu» (Kavanagh, 2010).
Certo é que, em 2022, no seguimento da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, a esmagadora pontuação dada pelo televoto a Stefania dos Kalush Orchestra demonstrou o apoio massivo dado à Ucrânia neste contexto político. Tal já tinha sido evidente na edição de 2014, quando as Tolmachevy Sisters, representantes russas com a canção Shine, foram fortemente vaiados na arena, o que foi atribuído à anexação da Crimeia no início do ano, mas também às restrições dos direitos LGBTQIA+ na Rússia. Se a Eurovisão se afigura como arena de diplomacia cultural e de nation branding, oferecendo às nações uma plataforma de escala internacional que permite conquistar pessoas através da utilização da música como produto cultural, a Rússia e a Ucrânia, a partir de 2014, procuraram utilizar o certame como plataforma de diplomacia cultural, através de mensagens políticas implícitas (Welslau & Selck, 2024, 9-24). Enquanto a Rússia enviava canções sobre a paz, em contradição com as ações geopolíticas em curso, procurando criar a imagem de um país libertador, o enfoque da Ucrânia consistia em demonstrar uma cultura e identidade nacional própria, mas também denunciar as agressões da Rússia, o que foi bastante claro na canção 1944, de Jamala, vencedora do Festival Eurovisão da Canção de 2016:
«They kill you all and say
“We're not guilty, not guilty”
Where is your mind? Humanity cries
You think you are gods but everyone dies (…)
Yaşlığıma toyalmadım
Men bu yerde yaşalmadım»
«Eles matam todos e dizem:
"Não somos culpados, não temos culpa”
O que tu tens na cabeça? A humanidade chora
Vocês pensam que são deuses. Mas todos morrem (...)
Eu não pude desfrutar a minha juventude
Eu não pude viver neste lugar»
(tradução nossa)
De acordo com Bohlman (2007, 57), «as canções nacionais participam na construção da história, mobilizando agentes e atores históricos através da performance e reunindo as suas diversas partes para concretizar o panorama completo do passado, do presente e do futuro utópico». Aludindo à deportação dos tártaros da Crimeia, na década de 1940, pela URSS, a Ucrânia lança luz sobre a repressão por estes vivida após a anexação russa da Crimeia.
Certo é que não estávamos perante o primeiro conflito da Rússia com outro país participante, uma vez que, em 2008, tinha sido desencadeada a Guerra Russo-Georgiana, com repercussões na edição de 2009 do Festival Eurovisão da Canção, organizado pela Rússia. A Geórgia selecionou a canção We Don't Wanna Put In:
«Some people tell you the stories
To drag you down to the knees (…)
We don't wanna put in the negative move»
«Algumas pessoas contam-te histórias
Para vos colocarem de joelhos (...)
Nós não queremos dar um passo negativo»
(tradução nossa)
A enunciação acentuada das palavras «put in» foi vista como uma crítica velada ao Presidente da Rússia, pelo que a EBU solicitou que a letra da música fosse reescrita. Contudo, a Geórgia recusou fazê-lo e anunciou a sua retirada, alegando que a EBU estava sobre pressão russa. Por outro lado, a EBU foi incapaz de vislumbrar qualquer cariz político na performance realizada no intervalo da 1.ª semi-final, quando as t.A.T.u. se juntaram ao Aleksandrov Red Army Choir, para cantarem Not Gonna Get Us, num palco onde foram colocados um tanque e um avião militar.
Em 2022, após a invasão da Ucrânia, a EBU declarou que a Rússia teria permissão para participar na competição, alegando a natureza apolítica do evento. No entanto, acabou por recuar nesse posicionamento, após várias emissoras terem solicitado a retirado do país da competição – tendo, aliás, havido ameaças de desistência caso isto não ocorresse – sustentando que «em vista da crise sem precedentes na Ucrânia, a inclusão de uma inscrição russa no Concurso deste ano desacreditaria a competição».
Por fim, destaca-se que, após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023 e o posterior desencadeamento dos massacres contra o povo de Gaza por parte de Israel, esperava-se que os apelos para a sua exclusão do concurso lograssem obter sucesso, mas tal não sucedeu. Se, em 2009, Noa & Mira Awad cantaram There Must Be Another Way e, em 1983, aproveitando a realização do Festival Eurovisão da Canção em Munique, a 16 km de distância de Dachau – onde se encontra o primeiro campo de concentração da Alemanha Nazi, aberto em 1933 – Israel enviou a Ofra Haza com Hi:
«Shim'u, echai, ani od chai (…)
Ani od chai, chai, chai
Am Yisra'el chai
Ouçam, meus irmãos, eu ainda estou viva (...)
Eu estou viva, viva, viva
A Nação de Israel está viva»
(tradução nossa)
Em 2024, seria este Estado a iniciar um genocídio e a implementar estratégias propagandistas destinadas a transformar a sua imagem e branquear a mesma, nomeadamente através de uma campanha do Ministério das Relações Exteriores de Israel para aumentar a votação do público no concurso. Apesar da letra da canção original ter sido recusada, uma vez que se intitulava October Rain, o que seria uma violação do alegado carácter apolítico das canções, a alteração para Hurricane não impediu que a mesma fosse legitimada neste meio de comunicação de massas e, futuramente, cantada na sua versão original em concertos em Israel e nas Nações Unidas.
Em suma, poucas dúvidas restam que o Festival Eurovisão da Canção tem um caráter político: na seleção dos países participantes, no conteúdo lírico das canções, na língua cantada, nas performances, nas votações e até mesmo nos slogans das edições. O certame é sobretudo político na escolha do que se considera político. Os posicionamentos da EBU e das várias emissoras públicas oscilam ao sabor dos ditames nacionais e europeus, demonstrando as contradições entre «fatores políticos e ideais apolíticos» (Raykoff, 2007, 3). Resta saber: é esta a ideia de Europa que o Festival Eurovisão da Canção quer construir? Quantos poderão dizer «Shim'u, echai, ani od chai» no final disto?