Fonoteca Municipal do PortoFMP

Entrevista com Midus Guerreiro

Mariana Duarte

Entrevista

09 Junho 2021

Tocávamos em todo o lado, desde campos de futebol a ginásios
Tinha apenas 19 anos quando se tornou baixista e vocalista dos Roquivários, uma das bandas do boom do rock português dos anos 80. Mas a sua história com a música já vinha de trás. Aos nove anos, Midus Guerreiro tocava numa banda de igreja e, em casa, ouvia o rock de Santana e dos Cream que passava na rádio. Já adulta, nunca mais largou a música. No final da década de 80 mudou-se para Londres, onde começou a trabalhar como baixista de sessão – acompanhou nomes como Anne Clark, Melanie C (a ex-Spice Girl) ou Bryan Ferry. Hoje, é por lá que continua e é lá que se encontra a preparar o seu primeiro álbum a solo, que planeia lançar em Portugal este ano.

Como começou a sua relação com o baixo?

Tudo o que eu ouvia na rádio puxava-me para as linhas de baixo. Santana, por exemplo, era muito à base de grooves. Eu ainda não tinha um baixo, na altura. Comecei com a viola e só tocava as primeiras quatro cordas. Tocava de ouvido, tinha essa facilidade. Era muito autodidata. Um dia, estava a ver televisão e vi a Suzi Quatro. Foi a primeira vez que vi um baixo.

E logo com uma mulher.

E logo com uma mulher. Quando vi a Suzi Quatro percebi que não era nada de anormal uma rapariga tocar baixo. Os meus pais puseram-me no ballet e, à minha irmã, que não tinha ouvido nenhum para a música, puseram no piano. Como eu gostava de tudo, não dizia nada. Eu ia a todas. E não falava com os meus pais em relação a guitarras ou baixos, mas eles começaram a notar que eu gostava de música e deram-me uma viola, porque achavam que seria um instrumento mais adequado a uma rapariga. Tinha uns nove, dez anos.

Nessa altura já ouvia rock?


Sim, eu gostava de Creedence Clearwater Revival, Cream, Santana e, mais tarde, de Deep Purple. Ouvia tudo isso na rádio. Os discos que tinha lá em casa eram de música infantil [risos]. Lembro-me que às vezes até punha o rádio debaixo da minha almofada, à noite, e sintonizava a Rádio Luxemburgo, onde davam os tops.

E como surgiram os Roquivários?

Entretanto os meus pais mudaram-se da Moita para Almada. Eu estava no liceu, já depois do 25 de abril, e o pessoal faltava muito às aulas. Havia sempre alguém a tocar guitarra à porta da escola e a malta juntava-se para ouvir. Havia um rapaz, o Jorge Loução, que tocava muito bem, e ficámos amigos. Entretanto, outro rapaz, o Mário Gramaço, disse ao Jorge que queria fazer uma banda. O Jorge falou comigo, ensaiámos, eles gostaram de mim e formámos a banda. Os Roquivários eram uma banda de liceu, sem pretensões. Só queríamos tocar ao vivo. Mas, quando menos esperávamos, os responsáveis da Rádio Triunfo [editora e empresa de produção e distribuição de música] foram ver um ensaio nosso e quiseram assinar-nos, mesmo antes de termos começado a tocar ao vivo. Já tínhamos músicas e fomos diretos para o estúdio. Isso é uma coisa que nunca se deveria fazer. As bandas devem rodar, primeiro, para estar tudo bem oleado e definido. Só nos deram quatro ou cinco dias para fazer o álbum [Pronto a Curtir, 1981]. Foi tudo à pressa… O segundo já foi mais pensado e trabalhado [Roquivários, editado pela Valentim de Carvalho em 1982, onde se encontra o êxito Cristina, Beleza É Fundamental].

Onde é que vocês tocavam?

Nós corremos o país inteiro. Tocávamos em todo o lado, desde campos de futebol a ginásios, de teatros a salas de espectáculos. Éramos bons ao vivo. Quando começávamos um concerto sabíamos que músicas é que íamos tocar, mas podia durar uma hora e meia ou duas. Havia muito improviso.

Como era dar concertos no pós-25 de abril? Sentia que havia uma energia especial?

Nós nunca soubemos o que era o outro lado, ou seja, dar concertos antes do 25 de abril. Mas sim, era especial. Estivemos no meio do boom do rock português. Havia público por todo o lado e nós divertíamo-nos imenso.

Vocês não tocavam só rock: cruzavam-no com reggae, ska, jazz…

Sim, por isso o nome inicial: Rock & Varius. Foi uma dor de cabeça tentar arranjar um nome para nós. Um vinha do reggae, o outro era mais rock dos anos 60, eu era mais pop… Éramos um bocado de tudo. Só no segundo álbum é que a coisa foi mais bem pensada. Quando a Valentim de Carvalho nos apanhou, mudámos o nome para Roquivários.

Nessa altura conheceu outras mulheres que faziam rock em Portugal?

Nós dividíamos os palcos com a Lena d’Água e os Salada de Frutas e com a Adelaide Ferreira, que no início era muito rock. As Damas Rock chegaram entretanto… Mas quase não havia raparigas a tocar baixo.

Ouvi dizer que os concertos eram uma loucura: os fãs queriam abraçá-la, agarrá-la…

Sim [risos]. O que é engraçado é que às vezes isso passava-me ao lado. Quando saía do palco, muitas vezes era levada pelos seguranças para o camarim, portanto não via o que realmente se estava a passar. Em 2019 estive em Portugal a tocar no festival O Sol da Caparica, como convidada do Tim [Xutos & Pontapés], e encontrei-me com um amigo que tocou teclas nos Roquivários. Ele disse-me: “Midus, quando eu tocava com vocês aquilo era uma loucura! Os fãs agarravam-te os cabelos, queriam bocados!”. Lembro-me que havia um clube de fãs e que, de vez em quando, pediam-me para cortar um bocadinho de cabelo para dar aos fãs. Até comecei a ficar com medo, a pensar que queriam fazer alguma coisa com o meu DNA… [risos]. Mas tivemos sempre muito boas experiências com os concertos e com os fãs. Foi uma grande escola para mim.

Foi com o fim da banda que começou a fazer música a solo?

Com o fim de Roquivários fui apresentada ao Fernando António dos Santos [Beatnicks, Da Vinci] para fazer coisas a solo. Assinei pela Polygram e foi aí que nasceu o single Lá Longe [1985]. Entretanto, decidi ir para Londres porque queria trabalhar com o Luís Jardim. Fui à TAP e expliquei-lhes o que queria, e como precisava de viagens grátis. Depois fui a uma agência de viagens, disse-lhes que queria fazer um disco mas não tinha onde ficar. Deram-me hotel. Consegui seis viagens, ida e volta, e seis estadias. Eu é que tratei de tudo. Mas nunca me aproveitei de ninguém, viajava mesmo para fazer música. Das vezes que eu ia a Portugal, ia conhecendo pessoas. Pelo caminho, o Tozé Brito desafiou-me a concorrer ao Prémio Nacional de Música [1988, na Figueira da Foz]. Quem ganhasse ia participar no Festival da Canção. Então eu arranjei uma banda e fizemos uma música para isso, chamada Amazónia.

Essa banda, também chamada Amazónia, era composta por mulheres de várias nacionalidades.

Sim, juntei-as em Londres. Não ganhámos o Prémio Nacional de Música, mas com essa banda fiz uma tournée de um mês em Portugal.

Aí quis explorar o lado mais pop que não conseguiu em Roquivários.

Sim. O que eu gosto mesmo é de pop-rock.

Faz todo o sentido ter acabado a tocar baixo para a Melanie C.

Claro. Quando me chamaram para a audição eu não sabia que música é que ela ia lançar. Só sabia que ia editar um álbum. Cheguei lá, mandaram-me para uma sala e foi aí que ouvi a música pela primeira vez. Era tão do meu estilo que eu apanhei-a logo à primeira. No dia seguinte tinha viagem para Portugal, por isso perguntei-lhes se me podiam dizer no espaço de uma hora se ia ser escolhida ou não. Às 21h ligaram-me a dizer que tinha sido selecionada. Depois fui numa tournée mundial de quatro meses.

Em Londres trabalhou com muitos outros músicos e cantores, como Anne Clark, Bryan Ferry, Billie Myers, Meja. Como é que conseguiu entrar no circuito dos músicos de sessão?

Demorou algum tempo. Quando cheguei a Londres ia todos os dias a sítios e a jam sessions de guitarra na mão, para tocar. Quando às vezes os meus amigos músicos me perguntam “Midus, eu quero ir para Londres, o que devo fazer?”. Eu digo sempre: “Tocar, tocar muito, sem se armarem em estrelas lá porque tiveram discos em Portugal”. Temos de ser vistos. Pode ser num pub com pouca gente, mas aquela pessoa que está ao balcão a tomar uma bebida pode estar à frente de uma editora. Eu entrava em tudo o que era sítio para tocar e fui sendo reconhecida. Fui conhecendo pessoas, fui sabendo de agências que representam músicos de sessão. Fiquei ligada às principais. No caso da Anne Clark, com quem toquei durante oito anos, foi através de um baterista amigo – ela não recorria a agências. Com muitos dos outros artistas foi através de agências. E corria muitas televisões, a fazer playback ou a tocar ao vivo… Houve uma altura em que havia programas de música quase todos os dias e eu estava lá quase todos os dias.

Quais? O Top of the Pops?

O Top of the Pops e o Jools Holland na BBC, depois havia os dos outros canais. A minha cara tornou-se tão conhecida que, quando eu entrava na BBC, os cameramen viravam-se para mim e diziam: “Então, estás aqui outra vez?!”.

Sempre preferiu tocar para outros artistas do que fazer a sua própria música?

Quando cheguei a Londres, o que ia fazer? Escrever em inglês? Não tinha o domínio suficiente da língua. Ia cantar em português? Também não. E eu queria tocar, queria ter experiências novas com outras pessoas. Antes de eu ter começado a fazer sessão, juntei-me a bandas. Andava nas carrinhas delas a tocar pelo país. Uma dessas bandas foi as Coming Up Roses. Fizemos um álbum chamado I Said Ballroom [1989], que saiu pela editora do Billy Brag [Utility Records]. Foi ele que nos lançou. Gravámos no mesmo estúdio que os Pretenders, o que foi espectacular.

E agora, o que é que a Midus anda a fazer?

Há uns tempos escrevi um tema para um grande amigo meu de Portugal, o Benvindo Fonseca, que durante muitos anos foi o bailarino principal do Ballet Gulbenkian. Uns produtores alemães querem fazer um filme sobre a vida dele e querem que essa música entre no filme. Por isso, agora estou a refazê-la. Também estou a trabalhar noutros temas, para tentar lançar um disco meu este ano, em Portugal.

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