21 Maio 2026
Em outubro de 1989, quando Ana Firmino gravou este Carta de nha cretcheu, crioulo para “Carta do meu amor” e título do poema de Eugénio Tavares, Cesária Évora ainda não era a diva de aclamação internacional que viria a tornar-se dois anos mais tarde com o célebre Mar Azul. A morna, ex-líbris do cancioneiro de Cabo Verde, restringia-se às ilhas e à diáspora, com Lisboa a ser o seu epicentro fora de portas. No início da década de 70, Bana, o maior intérprete da morna, muda-se para a capital portuguesa. Das ilhas, convoca artistas em que acredita — Cesária, Frank Mimita, Norberto Tavares, entre outros — iniciando uma nova era da música de Cabo Verde em Portugal e centrando todo este novo talento no seu Monte Cara, restaurante que abre no pós-25 de abril. É aqui que iremos encontrar, com regularidade, a matéria deste disco: Ana Firmino, cantora, Tito Paris, responsável pelo arranjo da canção que dá nome a este disco, Toy Vieira, irmão de Paulino Vieira, e Armando Tito. Este último, guitarrista de excelência, acompanhara Cesária nas suas primeiras gravações e formara o grupo Sossabe, em 1983, com Firmino e o violinista Travadinha. Travadinha faleceria anos antes de Carta de nha cretcheu, a quem Firmino presta homenagem ao recuperar para aqui a canção tradicional Ó Bernard, que gravou em “Feiticeira de cor morena”, o único LP de Travadinha.
As décadas de 80 e 90 revelaram-se férteis para a música de Cabo Verde. Não obstante a diáspora, a Rua de São Bento, em Lisboa, servira como ponto de encontro cultural e artístico para a comunidade migrante: lojas, mercearias, tascas e tocatinas, com a música tradicional em diálogo com a abordagem elétrica ao funaná trazida pelos grupos Bulimundo e Os Tubarões. Produziram-se dezenas de discos (ou talvez centenas?), nasceram novos nomes, incluindo compositores, como Jorge Humberto, que assina neste disco as suas primeiras composições antes de uma carreira em nome próprio. Também desta fertilidade surge um conjunto de vozes femininas de onde se destacam Celina Pereira, Maria Alice, Titina, Nancy Vieira e, claro, Ana Firmino. Firmino viria a gravar mais dois álbuns, no final dos anos 90 e início da década seguinte, ambos com a música tradicional como pano de fundo, perfilando-a como figura da morna em Lisboa. Uma discografia curta mas assinalável, oferecendo à música de Cabo Verde este seu disco de estreia, que se tornou essencial para a difusão da morna e que ilustra na capa uma pintura do seu marido, António Firmino, com quem teve um filho, popularmente conhecido como Boss Ac.
As décadas de 80 e 90 revelaram-se férteis para a música de Cabo Verde. Não obstante a diáspora, a Rua de São Bento, em Lisboa, servira como ponto de encontro cultural e artístico para a comunidade migrante: lojas, mercearias, tascas e tocatinas, com a música tradicional em diálogo com a abordagem elétrica ao funaná trazida pelos grupos Bulimundo e Os Tubarões. Produziram-se dezenas de discos (ou talvez centenas?), nasceram novos nomes, incluindo compositores, como Jorge Humberto, que assina neste disco as suas primeiras composições antes de uma carreira em nome próprio. Também desta fertilidade surge um conjunto de vozes femininas de onde se destacam Celina Pereira, Maria Alice, Titina, Nancy Vieira e, claro, Ana Firmino. Firmino viria a gravar mais dois álbuns, no final dos anos 90 e início da década seguinte, ambos com a música tradicional como pano de fundo, perfilando-a como figura da morna em Lisboa. Uma discografia curta mas assinalável, oferecendo à música de Cabo Verde este seu disco de estreia, que se tornou essencial para a difusão da morna e que ilustra na capa uma pintura do seu marido, António Firmino, com quem teve um filho, popularmente conhecido como Boss Ac.