Canal 16 - Fonoteca Municipal do Porto

Fonoteca Municipal do PortoFMP

Canal 16

Renato Cruz Santos

Percurso

12 Março 2026

Foi em 1912, na sequência do naufrágio do RMS Titanic – o desastre marítimo mais popular da história ocidental, que James Cameron, em 1997, transportou para o grande ecrã – que se deu a maior revolução no que diz respeito à segurança da vida humana no mar, com a criação do SOLAS (Safety Of Life At Sea). Desde então, desenvolveram-se diversas conferências, sendo que logo na segunda, em 1935, deu-se o grande passo de adotar a expressão MAYDAY como chamada internacional para o socorro. Estes tipos de equipamentos tecnológicos para comunicação eram, na altura, bastante volumosos e apenas embarcações de maior dimensão, como cargueiros, é que tinham obrigatoriedade e possibilidade de utilizá-las. Em Portugal, o panorama das pescas era bastante precário, sendo que no norte do país, na pesca da sardinha – que aqui abordo –, as embarcações a vapor começaram a surgir, na década de 1930, e os gasoleiros, com motor de centro, em finais da década de 1960. Até aí, podemos imaginar praias repletas de catraias e lanchas de madeira e a remos.

A modernização tecnológica da frota pesqueira, acompanhada pela devida legislação, reformou as questões de segurança, passando a ser obrigatória a utilização a bordo do GMDSS (Global Maritime Distress Security System), e o sistema marítimo de ondas rádio VHF (Very High Frequency) estar continuamente ligado no Canal 16 — situado nos 156.8 MHz. Esta frequência é utilizada, unicamente, para situações urgentes a bordo, através do código PAN PAN PAN ou questões mais dramáticas como um naufrágio através do internacionalmente conhecido MAYDAY MAYDAY MAYDAY— derivação do francês m’aider (ajuda-me).

O alcance do Canal 16 varia entre 20 a 50 milhas de raio, dependendo de diversos fatores, como o estado do tempo, obstáculos na paisagem ou tamanho das vagas de mar. São muitas as histórias de picardias entre embarcações, através do Canal 16, isto para toda a gente ouvir, claro. Como uma que o Jaime Pontes “Pião”, antigo pescador das Caxinas e do mundo, me contou, quando andava a fazer grandes marés de robalo, nos anos 1980, ao largo de Leça da Palmeira no seu barco Caximar, e um mestre de outra embarcação de pesca, que era conhecido por ser rude, enfastiado com a sequência de más pescarias, dirige-se ao rádio e, com raiva, ameaça todas as embarcações ao seu redor, daquilo que se preparava para fazer — largar 80 redes de sul a norte, de Leixões a Vila Chã, sem se importar com quem lhe cruzasse caminho: “Saiam da frente que eu não quero saber de nada”, gritava com brutidão, contou-me o Jaime. Curiosamente, a pescaria correu-lhe mal. Carregou o barco de problemas e passou duas semanas no cais a calcar pilado. Porém, a história que relaciona estes dois discos de escolha menos provável – Fados por Maciel (pescador) e Despedida – não está relacionada com questões trágicas nem situações de violência a bordo, acontecimentos pelos quais o setor piscatório é regularmente assinalado.

Após o 25 de Abril, editar um disco estava ao alcance de quem tivesse 300 escudos. Muitos apostaram esses 300 em busca de um lugar de fama, outros na luta por uma carreira de sucesso, outros pelo orgulho de deixar um objeto com a sua voz para a posteridade, disse-me a Dona Linda, proprietária da casa O Bronco, localizada em Águas Santas, Maia, no dia 6 de outubro de 2024, que por mero acaso, coincidiu com o 25.º aniversário do falecimento da nossa fadista mor — Amália Rodrigues. “A Amália chegou a cantar na minha primeira casa, A Taberna do Brando. Tenho ali um xaile que ela ofereceu à minha filha, que também cantava fado”, contou-me a Dona Linda.

Nessa miríade de novos artistas, à procura do seu palco, estava Maciel que, em 1976, gravou o seu único disco — Fados por Maciel (pescador), EPF 5.794 — editado pela Rapsódia. Com letras originais e melodias tradicionais — como o Cheira bem, Cheira a Lisboa — pelas mãos de uma grupeta constituída por Ernesto Almeida, Joaquim dos Anjos e Eduardo Jorge, que os reuniu. Eduardo Jorge é o único elemento vivo e é músico residente na casa O Bronco. Eduardo disse-me, entre cigarros, no intervalo da sessão de fado, que o disco foi gravado no antigo estúdio em Alves da Veiga e que foi “assim às três pancadas”. “Conhecemo-nos nessa tarde e logo ensaiamos. À noite, o disco estava gravado.” Era um modus operandi comum isto de surgir alguém a querer ser gravado e necessitar de uma trupe que o acompanhasse, leia-se os créditos da maior parte dos discos de fado desta altura.

Maciel sempre foi pescador. Ao atingir a maioridade, partiu para os mares gelados da Gronelândia, onde pescou durante uma década, sempre com grande prestígio, consecutivamente, o melhor da sua categoria, sendo designado de “Especial”. Voltou à sua terra natal e, logo depois, foi pescar para a costa do continente africano — a bordo do Senhora do Sameiro, “perde a hélice e anda à deriva defronte ao Cabo das Tormentas por três dias. Valeu o alarme de um indígena ao salva-vidas de Inhambane que recolheu os náufragos exaustos e esfomeados”, como foi referido numa das notícias da altura — tendo, por fim, regressado às Caxinas e por cá ficou, na pesca artesanal, perto da sua família. O seu primeiro barco foi buscar o nome ao lugre-motor no qual embarcou durante dez anos. O Condestável era um pequeno barco de pesca local, com motor de centro. Pescava essencialmente peixe miúdo, sardinha, cavala, entre outros. Depois disso, vendeu-o e construiu o Avô Ricardo, uma embarcação maior e apta para diversos tipos de pesca, desde os pelágicos até aos demersais. É nessa mesma embarcação que José Moreira Maciel é fotografado para a capa do disco, dentro do Porto da Póvoa de Varzim. De cabelo ao vento e olhar pisco, com o pé esquerdo em cima do alador e de guitarra ao peito, marcando um Dó maior com a mão esquerda, Maciel está vestido “à pescador”, como todo ele era, e à popa veem- se, amontoadas, as armadilhas para a pesca, os covos — aparelhos dedicados principalmente à pesca da faneca, às vezes, algum congro ou polvo. Um disco de sonoridade alegre e humorística, ao género de Neca Rafael (Dona Linda dixit), que relata o ambiente sociopolítico que se vivia no pós-25 de Abril e que reforça a necessidade de “suor e trabalho” para o país progredir. A família de Maciel guarda religiosamente um recorte de uma notícia que data de 30 de setembro de 1981, “saiu num jornal do Porto”. Uma crónica assinada por José Azevedo com o título “‘Rei’ das Caxinas”, com o subtítulo “Cantou para Isabel II o pescador das Caxinas”. Quatro colunas de relato de uma vida tão árdua, quanto admirável, tão hilariante, quanto insaciante sobre um homem que não soube perder uma oportunidade. Um conto em que se acrescenta um ponto, traçando o espírito desta alma livre do lugar de Caxinas, Vila do Conde, elevando-o automaticamente ao estatuto de figura mítica local. A aproximadamente doze milhas náuticas, ou vinte e dois quilómetros, a sul do Porto da Póvoa de Varzim, encontramos o Porto de Leixões, onde outrora ficava a original Praia de Matosinhos, e é num dos cais do maior porto de pesca do norte de Portugal que encontramos, atracado e fotografado, José Vicente da Cunha, localmente acarinhado como Zé Caravela e posteriormente Mestre Caravela, observando atentamente os redeiros da traineira Mar Branco, na qual era mestre, no trabalho de atar as redes depois de uma noite de avaria. Nesta fotografia, a preto e branco, não estão só “homens de terra”. Estão também “homens do mar”. Isto porque, quando alguém ia pedir ao mestre lugar para trabalhar no barco, eram questionados se sabiam ou não desta arte de atar. Se o soubessem, tinham maior probabilidade de entrar no rol de tripulação.

Em 1986, José é o convidado num episódio do programa Os Anos Não Contam, da RTP. Aí, Mestre Caravela explica a origem da sua alcunha. “Ao sábado, como era o dia em que não íamos ao mar, a minha mãe dava-me os dez escudos da caldeirada — que era uma distribuição que se fazia parcialmente pelos pescadores (...). Eu fazia questão de que o escrivão, que era o pagador naquele tempo, me desse uma moeda de prata que existia com uma caravela. De forma que eu até chamava a essa moeda ‘a minha caravelinha’ porque dessa vez era para mim”.

José Vicente da Cunha, natural de Matosinhos, trabalhou sempre no Porto de Leixões e foi parar ao mar “por necessidade”. Na altura da entrevista, demonstrando lealdade a quem o ajudou a chegar a “Mestre” expôs o facto de já trabalhar na embarcação Mar Branco há vinte anos. Era um homem localmente renomado pela sua categoria enquanto mestre, e pela sua personalidade por todos aqueles que atracavam naquele porto de pesca fossem Poveiros, Vareiros, Vianenses, etc.

Ao contrário de José Maciel, Zé Caravela não tinha a atividade da pesca em todo o seu redor. O avô materno era pescador e o avô paterno carpinteiro. O que tornava a subida nas categorias a bordo mais difícil, visto que esses patamares acontecem através de hierarquias familiares. Os filhos sucedem aos pais. Os genros sucedem aos sogros. Nas comunidades piscatórias, procura-se sempre, entre safras, tirar o curso de contramestre — aquele que está no convés a dar ordens aos camaradas — e depois o curso de mestre — aquele que navega o barco e dá ordens ao contramestre — a fim de ir progredindo na carreira. Caravela era filho de pescador mas logo cedo perdeu o pai.

Numa entrevista à revista FLAMA, de fevereiro de 1971, Caravela conta: “Vê? Isto é a minha grande paixão. Adoro ler versos. Recorto tudo que encontro nos jornais e revistas que seja referente a poesia. E leio quando tenho tempo. Deliciado. O que considero bom, decoro. Adoro dizer versos. Sobretudo os mais tristes. E, contudo, sou uma pessoa alegre, que encara a vida com a melhor disposição”.

Este sete polegadas, gravado em 1971, carrega no título o nome do primeiro tema — Despedida — e indica-nos, claramente, aquilo que o disco nos trará em conjunto com Casa Vazia, Quem Canta Seus Males Espanta e Para Quê Versos, consolidando, em cerca de 12 minutos, um fado castiço. Sofrido, saudoso e melancólico. Despedida é um fado escrito por Manuel Moreira e os restantes por António Calém. Os instrumentistas são Manuel de Carvalho e Miguel Costa, nas violas, e Samuel Paixão, na guitarra portuguesa.

Para além de José Moreira Maciel e José Vicente da Cunha demonstrarem, honrosamente, a sua profissão de pescadores, acima de fadistas — envergam esse orgulho na fotografia que ilustra as suas capas — e de terem a ousadia de registar a sua voz em rodelas de cera rígida, estas duas figuras populares tinham um hábito em comum.

Ao largo do mar, no breu, em noites de calmaria e céu limpo, onde não se avista horizonte, os sinais lucilantes das embarcações em redor fazem-se confundir com estrelas. A milhas de terra firme, as embarcações balançam vagarosamente com a pequena oscilação das vagas do mar, que marcam o ritmo dos trabalhos a bordo. O tempo dilata. Fumam-se cigarros. O contramestre não precisa de indicações. Sabe bem como trabalhar. Vai na proa com a cabeça de fora para ver se ele aparece, mas o peixe foge à traineira. Na casa do leme, está o mestre, ladeado pelas figuras de Nossa Senhora de Fátima e São Pedro Pescador, ansioso por ver o “vermelhão” marcado, sinal da presença de cardumes. Mas a sonda teima em não marcar peixe. Passam-se horas. O barco paira, a tripulação repousa, aguardando o alvor. O rádio está ligado no Canal 16 e o mestre pega vagarosamente no microfone de punho e, para matar o tempo, faz ouvir-se o fado a bordo de todas as embarcações que a frequência alcança - recorda o meu pai, José Trocado dos Santos, que com eles conviveu, que os ouviu e que pescou durante mais de quarenta anos consecutivos nas águas do noroeste português. “Eram os dois bons homens. Bons pescadores.”

Maciel cantava “rimas a metro”, improvisava, e com o seu humor imediato dava outro alento àqueles que o escutavam. O Mestre Caravela cantava distância, cantava saudade. A sua voz, só, no aparente vazio.

É esta a minha ideia do som da pesca. A lembrança da carrinha Bedford de caixa aberta, parar em frente ao portão de casa e os cães começarem a ladrar. Nós, os filhos, no quintal, a gritar para dentro de casa “O pai chegou!!”. O sabonete ficava cheio de escamas e o rádio estava sempre sintonizado na saudosa Rádio Festival com a cadência, por vezes soturna, do meu pai em uníssono com a voz de António Calvário, Tony de Matos, Amália Rodrigues ou Frei Hermano da Câmara e outras mais alegres como Alfredo Marceneiro ou Max. Dentro de casa, cheira a peixe, a batatas e a couves cozidas. “Está muito vapor aqui dentro, abram as portas e as janelas.” — dizia a minha mãe, Maria Fernanda Graça Cruz — matriarca que durante todos esses anos tratou dos filhos, da casa e da comida para o homem.

José Moreira Maciel faleceu em maio de 1992 e José Vicente da Cunha em maio de 2009, tendo o último recebido, a título póstumo, a Medalha Municipal de Mérito da Câmara Municipal de Matosinhos durante as comemorações do Dia do Pescador presididas por Guilherme Pinto.

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