Fonoteca Municipal do PortoFMP

Camerata Elettronica

André Santos

Resenha

26 Fevereiro 2021

Música não moderada
Jorge Lima Barreto e Vitor Rua, enquanto Telectu, criaram intensivamente ao longo de mais de duas décadas. A produção, nunca em excesso, apenas incansável, era acompanhada por constantes mudanças na abordagem a formas e géneros e de como isso se traduzia para o resultado final. Em última análise – e falando à distância – é som livre, sem amarras de mercado, com uma genuína vontade de experimentar, provocar e encurtar caminhos entre a música popular e o resto. A década de 1980 dos Telectu é particularmente especial. Exploraram diversos horizontes. Quiseram ser Talking Heads no seu disco de estreia – Ctu Telectu (Valentim de Carvalho, 1982) –, rapidamente viajaram para territórios da composição minimal-repetitiva/avant-garde no segundo álbum - o primeiro enquanto duo - Belzebu (Cliché Música, 1983).

A partir deste momento, sem a máquina de uma grande editora por detrás, os Telectu compõem sem medo de falhar e criam discos-objetos que, mais três décadas depois, são uma lição para o conceito de edições especiais/limitadas que hoje proliferam. Seja a capa-poster em serigrafia que envolve os dois vinis de Off Off (3macacos, 1984), da autoria de António Palolo, a ambiciosa edição em caixa de Halley (Centro Nacional De Cultura, 1985) ou este Camerata Elettronica, o duplo LP que vem dentro de uma caixa de cartão com um trabalho barbárico de minucioso de António Palolo.

Ouvido hoje, e com um maior contexto da produção daquele tempo, Camerata Elettronica estava em linha com muita da música experimental mundial, que atualmente é explorada não pela costela experimental e, sim, pela forma como muitos artistas aproximaram a sua linguagem a géneros mais populares. Jorge Lima Barreto e Vitor Rua queriam fazer um disco de jazz com os instrumentos que melhor sabiam utilizar. O resultado é – nas palavras dos próprios – um “Jazz Mimético”.
Mas será mesmo? Há algo de jazz em Camerata Elettronica, uma base reconhecida em alguns temas como Casino, One For Vargas ou Arepo II, mas parece mais um ponto de partida para o duo começar a inventar – no melhor dos sentidos – a partir daí. Inventar, criar para a frente, sem moderação ou constrangimentos comerciais, com humor e provocação (um dos melhores temas chama-se Very Good Vibes e transmite-se exatamente isso, very good vibes, interrompendo o canal de pensamento de que não se pode brincar com música séria), são o que conduzem Camerata Elettronica.

O jazz foi o motor de arranque de Camerata Elettronica. A mimetização de um género não foi, contudo, uma amarra para a criatividade dos Telectu, que são depois muito Telectu na sua exploração: sem amarras, constrangimentos teóricos ou morais. Música não moderada. Livre. 

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