Fonoteca Municipal do PortoFMP

Brahms: Sinfonia nº 1 op. 68

José Carlos Fernandes

Resenha

10 Dezembro 2020

No mundo austro-germânico do século XIX, o género sinfónico era aquele em que se esperava que os compositores fizessem prova do seu talento. Todavia, Johannes Brahms (1833-1897), que começara a compor obras sólidas mal saíra da adolescência, já passara dos quarenta e não tinha ainda produzido uma sinfonia, o que levou a que, em 1873, Fritz Simrock, o seu editor, o espicaçasse numa carta – “Não tem nada de novo para me mostrar? Não terei uma sinfonia sua este ano?”.
A relutância de Brahms em apresentar uma sinfonia não resultava do seu desinteresse pelo género: desde os 21 anos que labutava para produzir uma, mas os esboços ficavam a meio, ou iam parar ao cesto dos papéis, ou sofriam remodelações radicais (um deles acabou, em 1858, por dar origem ao Concerto para piano n.º 1). O problema de Brahms também não era a falta de inspiração ou de desenvoltura na escrita orquestral, era ter uma admiração ilimitada por Beethoven e recear ver a sua sinfonia desfavoravelmente comparada com a do mestre supremo: “Nunca escreverei uma sinfonia! Não faz ideia do que é estar sempre a ouvir os passos de um gigante atrás de si!”.
Um ano após a carta de Simrock, Brahms voltou ao torso sinfónico que tinha colocado de parte (talvez em 1868) e, após mais dois anos de canseiras, deu por terminada a Sinfonia n.º 1, que estreou em novembro de 1876. Não havia motivo para tanta angústia, pois a obra, embora denotando a influência de Beethoven (e citando-o explicitamente), tinha personalidade própria – e o mesmo aconteceu com as outras três sinfonias que estreou em 1877, 1883 e 1885.
Quando hoje se contabilizam as grandes interpretações das sinfonias de Brahms, é frequente que se esqueçam os discos gravados por Eugen Jochum entre 1951 e 1956 com a Filarmónica de Berlim para a Deutsche Grammophon. É verdade que a concorrência é intensa – Karajan, Abbado, Chailly, Harnoncourt, Haitink, Wand, Giulini – e Jochum tem contra si o facto de a sua gravação estar quase a fazer 70 anos de idade e ser monofónica. Todavia, a engenharia da Deutsche Grammophon tirou partido da generosa acústica da Jesus-Christus-Kirche (que nas décadas de 50 e 60 gerou uma torrente de gravações de referência pela Filarmónica de Berlim) para produzir um som límpido e pujante, que serve na perfeição a direcção apaixonada e veemente (mas sem excessos ou maneirismos) de Jochum, e o resultado foi uma das mais vibrantes e calorosas gravações destas obras. Entre os fãs de Jochum, alguns darão preferência à sua segunda gravação destas obras, realizada em 1977 para a EMI, com a Filarmónica de Londres, já em estereofonia, mas a versão berlinense de 1951-56 tem qualidades que justificam que se ponham de parte reservas relativas à vetustez das gravações.

 

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