Fonoteca Municipal do PortoFMP

Autoamerican

Armando Sousa

Resenha

25 Novembro 2020

A herança musical norte-americana segundo os Blondie
Uma “canção-tocha” — tradução literal do inglês torch song — é uma balada extremamente romântica que se baseia naquele princípio desamoroso que une a ausência do ser querido ao sofrimento. Assim encerra o quarto disco dos Blondie: com Debbie Harry numa versão de Follow Me, a “canção-tocha” retirada do musical Camelot.

Manter acesa a tocha do amor pelo rock foi o objetivo a que os Blondie se propuseram em Autoamerican. E conseguiram, porque neste álbum apenas uma música merece essa etiqueta estilística, tantas vezes usada para ilustrar o universo dos Blondie: Walk Like Me. O resto do disco é um exercício conceptual, com referências ao passado, presente e futuro da cultura e da música norte-americanas.

Chris Stein, que compôs a maioria das canções de Autoamerican, recorreu às suas memórias em matéria de História e construiu um friso que começa numa overture chamada Europa, passa pelo jazz de Faces e termina com a funky Rapture, como adianto do que virá na década de oitenta: o rap. Ora, foi precisamente com Rapture e outra cover, desta vez de um original dos Paragons, que os Blondie atingiram subtilmente os tops, em 1980 e 1981. Num álbum que pretende ser uma homenagem ao universo musical norte-americano, parece quase irónico que a música mais ouvida tenha sido composta em Kingston, Jamaica.

Injustamente esquecidas no meio do conceito ficam Live it Up, Do the Dark e sobretudo T-Birds, a única música composta por Nigel Harrison, que parece vinda de discos anteriores do grupo, de onde evidentemente os Blondie se estavam a distanciar em Autoamerican. Tampouco parece casualidade que por esta altura a discográfica Chrysalis estivesse preocupada com KooKoo, o álbum de estreia de Debbie Harry, onde Chris Stein pode escrever numa linha mais coerente com a sua história pessoal do que com a história cultural do seu país.

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