Fonoteca Municipal do PortoFMP

Aurora envolta em nevoeiro

Isabel Duarte

Percurso

15 Julho 2021

À procura do trabalho escondido de Né Santelmo
A designer Né Santelmo não gosta de estar parada. Para ela, parte do seu processo de trabalho envolve ir dar passeios com os seus cães, visitar um amigo, ver uma exposição ou apreciar um bom filme. Estes variados interesses e energia são visíveis no seu trabalho, não só pelas várias áreas que explora, como desenho, fotografia, cenografia, música e design, mas também pela combinação de técnicas que utiliza. Esta experimentação é especialmente visível nas explorações que faz com fotocópias, onde consegue reunir objetos quotidianos com imagens das artes clássicas como, por exemplo, um pedaço de renda com uma escultura barroca. Mas não é só a procura de relações interessantes entre materiais e técnicas que Né explora no seu processo de trabalho. Interessa-lhe também encontrar formas de colaboração com os clientes, as gráficas e os colegas que a rodeiam, explorando a natureza genuinamente colaborativa do design. O que é interessante no seu trabalho é precisamente este entrelaçamento de interesses, materiais e direções. E é também a razão pela qual ele não é de fácil categorização.

No final dos anos 70, ainda enquanto estudante, naquela que era na altura chamada Escola de Belas Artes do Porto, Né fez parte de um projeto musical excecional que, não só produzia música, como também inventava instrumentos, criava figurinos e escrevia ensaios, com base num projeto etnográfico que analisava e investigava a herança cultural e musical portuguesa. O grupo chamava-se Vai de Roda e em 1983, na altura da gravação do seu primeiro álbum, também intitulado Vai de Roda, era composto por treze músicos: Manuel Tentúgal, Abi, Agostinho Couto, Amílcar Sardinha, Carlos Adolfo, Fernando Carvalho, Gil, Isabel Leal, Nanda, Né Santelmo, Paula, Preciosa Branco, Raul, Isabel Afonso, Mina e Zé Vitor. Natural de Trás-os-Montes, parte do contributo desta designer começou com uma observação rigorosa, a partir do desenho, das paisagens e das mulheres transmontanas. Nas mulheres encontrou os materiais, as cores e a sobreposição de camadas que trouxe para a criação dos figurinos. Nas paisagens descobriu a serenidade e as cores que usou na criação dos cenários. Como é costume no processo criativo desta designer, a solução para o desenho da capa do primeiro álbum surgiu enquanto manipulava os esboços para a construção dos cenários.

A aurora envolta em nevoeiro pintada em aguarela na capa do primeiro álbum é tão hipnotizante que quase não se vê o nome Vai de Roda que humildemente espreita por trás de uma montanha, ou será uma nuvem? É afinal uma representação do cenário que Vai de Roda usava em palco. Ao nascer deste sol, nascia também uma banda que, apesar da sua curta vida, teve uma tour internacional. Santelmo desenhou um cenário para essa tour que podia ser facilmente transportado entre países, alimentando o interesse, que veio a explorar no futuro, pelas soluções engenhosas e eficientes para os problemas de design. Mas, talvez o detalhe mais interessante seja o interior do disco, onde pode encontrar-se mais uma pintura, também pela Né, dos treze membros do grupo. Segundo a designer, dado o teor teatral e performativo das atuações dos Vai de Roda, era muito raro encontrarem-se os treze em palco e, por isso, decidiram fazer este registo — para que todos estivessem finalmente reunidos.

Logo após terminar o curso de Artes Gráficas começou a colaborar com o designer João Nunes com quem desenhou várias identidades corporativas, aproveitando o momento em que Portugal, no começo da sua democracia, abria as portas à importação e exportação, fazendo com que muitas empresas procurassem o design gráfico para as suas campanhas visuais. Nestes anos 80, as portas abriram-se também a nível cultural e muitos projetos musicais e artísticos floresceram. Foi o boom do rock português. Um desses projetos foi a banda Requiem pelos Vivos, para a qual Né Santelmo, em parceria com João Nunes, desenhou uma capa que consegue, com imagens a preto e branco tratadas em alto contraste, combinar com muita elegância a tipografia com uma aparentemente banal fotocópia de uma mão. Mas, o que torna a capa inquietante, é que esta mão está em movimento. Movimento esse que, não só cria uma imagem poética da representação da mão criadora, mas é também uma pista para entender o processo que Santelmo usou para interpretar as fotografias da banda captadas pelo seu colega João Nunes. No canto inferior esquerdo, os elementos da banda aparecem distorcidos. A sua forma é arrastada para fora da capa, convidando a virar o disco. Agora, a ocupar quase a totalidade da área da contracapa, podemos vê-los de perto, mas há algo de macabro na sua apresentação: um dos elementos da banda tem três pés, um outro tem o torso alongado. A designer tinha, como depois viria a ser seu costume, revertido o intuito da máquina fotocopiadora usando-a, não para produzir uma cópia, mas para criar um original, a partir da movimentação do papel ao ser copiado. O processo é simples mas eficaz e o efeito é poético e misterioso.

A experimentação com a máquina fotocopiadora continuou ao longo da sua carreira em variados projetos e é usada de novo na capa de um outro disco, desta vez no álbum Surrealizar da mítica banda portuense Ban. De novo, numa colaboração com a fotografia de João Nunes, o arranjo gráfico por Né Santelmo, indo ao encontro do projeto musical da banda, é arrojado, mas também taciturno. De acordo com a designer, fazia sentido que a capa mostrasse a banda, uma vez que era o seu primeiro álbum, mas de uma forma que fosse diferente do habitual. Em vez de tentarem captar um retrato do grupo a partir de uma sessão fotográfica controlada, decidiram fotografar cada elemento da banda individualmente e recortar cada um destes registos, manipulando o retrato final. Assim como a palavra Surrealizar, que soa real, mas é de facto inventada, também este retrato aparentemente verdadeiro é, de facto, ficção.

Estes foram alguns dos projetos que marcaram o início do caminho de Né Santelmo no design gráfico. Esse caminho, ainda percorrido hoje, tem sido frutífero, com vários momentos de grande interesse na história do design português, mas tem, sobretudo, sido um caminho feito livremente, dando asas à experimentação e à criatividade com vontade de aprender e de crescer. No entanto, por razões que assombram o design e a forma como se faz a sua história, o percurso desta mulher, assim como o de muitas outras, tem ficado escondido. Esperamos que esta pequena introdução ao trabalho e ao percurso de Né Santelmo desperte a curiosidade de quem nos lê para procurarem e descobrirem mais sobre esta e outras mulheres no design.

Imagem: Né Santelmo, Retrato, 1986, original em papel fotográfico com marcadores mecanorma, fotografia por João Nunes

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