Fonoteca Municipal do PortoFMP

Artur, o primeiro Paredes

André Forte

Percurso

13 Maio 2021

Mais do que pai de Carlos Paredes, Artur foi o originador da guitarrada à moda de Coimbra, que formaria e inspiraria o filho e deixaria uma marca perene no folclore nacional
O apelido Paredes ressoa por todo o mundo. Contudo, Carlos, o guitarrista virtuoso e solista prodigioso, não foi o único a contribuir para a fama do nome. Carlos Paredes era, afinal, pupilo de outro guitarrista, com quem partilha mais do que um nome. Carlos Paredes cresceu à sombra do seu pai, Artur Paredes (1899 - 1980), lenda da academia conimbricense, o homem por detrás das variações e o artista cujo génio levaria a redefinir a guitarra portuguesa e a esculpir a guitarra de Coimbra, sonante, estrondosa, capaz de encher uma sala e de rasgar o espaço sobre qualquer voz projetada. É, por isso, difícil falar de Carlos Paredes sem entender a importância que teve o seu pai no seu percurso, na tensão que haveria de crescer entre ambos e no que os torna nomes essenciais do folclore nacional, mas também figuras muito ligadas ao seu tempo.

Se Carlos Paredes rompeu mundo afora enquanto solista, Artur, mesmo solando, não se coibia de ser bem acompanhado. O pai de Carlos e da Guitarra de Coimbra atuava não apenas com uma guitarra clássica, mas também com outra Guitarra Portuguesa — a do seu filho. Carlos, por seu lado, libertou-se; talvez porque não houvesse um terceiro Paredes para acompanhar o seu dedilhado, talvez porque simplesmente não precisasse e conseguisse transpor para as cordas da guitarra tudo o que havia a dizer apenas com duas mãos. Carlos seria, também, gravado, regravado, reproduzido e referenciado. Já Artur recusaria desligar-se do seu legado. Os discos de sete polegadas com que pintamos este texto são, também e por isso, a história da família Paredes. Não só porque ambos figuram nas gravações, acompanhados de Arménio Silva, mas também por representarem um acontecimento raro num cancioneiro vasto, do qual poucos registos seriam feitos, ou sobreviveriam à austeridade do tempo.

Não se falaria de Guitarrada de Coimbra, nem da própria Guitarra de Coimbra, sem o contributo indelével de Artur Paredes. Aliás, a história da sua vida ficaria intimamente ligada à cultura de fados da Universidade, sendo ele convidado de honra de praticamente todas as cerimónias da instituição dos anos 50 em diante (algumas das vezes, com a nota “se aparecer”, mas sempre com o devido destaque no programa das festas). Artur não era só um exímio executante do dedilhado, mas também alguém que, em colaboração com os melhores fabricantes de guitarras da cidade dos estudantes, definiria o som das gerações que lhe seguiram: guitarra sonante, com uma caixa maior do que o habitual, e uma escala feita à medida das suas necessidades melódicas, que favoreciam a precisão das notas sem detrimento para com as variações drásticas no andamento de cada fraseado.

A história da Guitarrada à moda de Coimbra escreve-se, assim, a par e par com a da afirmação de Artur Paredes: duas guitarras de Coimbra, uma a harmonizar o caminho melódico da outra, a rasgar notas reverberante, brilhantes e pulsantes, sobre as notas mais graves de uma guitarra clássica. A regra dita que seja instrumental, dispensando a voz para contar as suas histórias de fraseados rápidos, mas com pausas estratégicas para respirar. No estilo de Paredes, eram estas tensões, entre o supersónico e espairecer, destacando a melodia entre os espaços rítmicos impostos pela harmonia, que o tornavam num intérprete inimitável. A sua idiossincrasia residia não nas notas que tocava, mas no ênfase que lhes dava, e no tempo em que as dava, infalível, ainda que muito próprio.

Este estilo não viria sem um génio travesso. A falta de registos discográficos de Artur Paredes não se deve à falta de vontade de o gravar. Deve-se à falta de qualidade que o próprio apontava como razão para não se prensar registos seus. A isto, soma-se uma personalidade que pouco dava do que fazia: Paredes conhecia o seu cancioneiro como ninguém, não sabia escrever música em pauta (quando tal acontecia era com o auxílio de quem o rodeava) e não demonstrava vontade de partilhar o seu cancioneiro com outros intérpretes. Talvez porque não fossem estes dotados da sua sensibilidade e porque não fariam jus ao que compôs, mas, especulações de parte, a história oral da sua personalidade narra episódios em que, perante um excessivo interesse de outro músico em perceber a sua peça, Artur Paredes coibia-se de a apresentar, de forma a evitar que alguém mais a tocasse. Esta história é, aliás, replicada no documentário Artur Entre Paredes, de Ivan Dias.

Este génio teria, mesmo, um impacto na relação com o filho, do qual muito se orgulhava, mas à sombra de quem nunca quis ficar. Variações Em Ré Menor, disponível para escuta na Fonoteca, denota um Carlos mais atrevido, que não ficava atrás do pai e que, possivelmente, tenha levantado algumas tensões. Carlos Paredes, claro, desenvolveu um estilo próprio, desdobrou-se em colaborações inusitadas, politizou-se como o pai nunca se atreveria a fazer, mas foi com o instrumento desenvolvido com o pai, às vezes adaptar e tocar peças do pai e, dizem alguns, com uma guitarra inicialmente pensada para o próprio Artur.

Entre a tradição e os primeiros avanços progressistas do que viriam a ser as suas novas formas, Artur cunhou dois EPs de 45 rotações, a somar a algumas gravações da Emissora Nacional e algumas rodelas de 78 rotações, que viriam a fazer parte do acervo da Fonoteca. Nos dois registos homónimos, entre Variações em Ré, Mi e Rapsódias, ilustrados com a mesma capa (variando entre o azul e o amarelo), ouve-se o som único de Coimbra, o das serenatas e dos estudantes que abraçaram o sucesso de quem o cunho, com guitarras sonantes, de sons brilhantes e ribombantes. O próprio desfecho das músicas, de dois acordes estrategicamente pausados e claros, são uma marca das suas composições que passariam a fazer parte do imaginário da guitarrada à portuguesa, segundo a tradição de Coimbra. À falta de registos gravados, resta-nos a tradição de perpetuar o seu cancioneiro. Infelizmente, é possível que o instrumento fique órfão de intérpretes ao nível de Paredes, pai e filho, para uma nova transformação. O legado que nos deixam, pelo seu lado, vai perdurar muito para além dos seus tempos de vida.

voltar

Porto.