Fonoteca Municipal do PortoFMP

Alma dorida

Armando Sousa

Resenha

26 Setembro 2020

Os Ban de João Loureiro, perdidos na polis cinzenta
É frequente tomar como exemplo o caso de Manchester para demarcar um dos muitos tipos de sonoridade associada aos anos seguintes à explosão do Punk. O imaginário da cidade no final da década de setenta compõe-se facilmente de imagens de um ambiente em tons de cinza, mais industrial do que urbano, onde nem com um livro de auto-ajuda alguém conseguiria vencer a depressão.

Ora, João Loureiro e Os Bananas imaginaram tanto este imaginário que deixaram de fazer ska e passaram a cantar e a tocar com ecos dos Bunnymen, que até são de Liverpool. A depressão foi tal que mudaram o nome para Ban e gravaram este EP com quatro músicas, muito adequadamente editado sob o título Alma dorida.

A segunda música do lado A deste disco, que – ao contrário do que parece – deve ser tocado em 33 rotações por minuto, reúne todas as características do panorama já descrito e que define qualquer banda urbano-depressiva, seja ela do Porto, Manchester, Liverpool, Londres ou Lisboa. E são elas as seguintes: acordes de guitarra rasgados à base de delays, linhas de baixo proeminentes e letras sensíveis cantadas por pessoas que têm um nó na garganta.

Repete-se a receita no lado B, em Ela dança, alva luz onde os Ban voltam a evocar elementos psicadélicos e padrões rítmicos definidos alguns anos antes pelo Ian McCulloch mais discordianista.

Apesar do Alma dorida constituir uma importante peça num pequeno quadro estilístico, para o qual contribuíram os Sétima Legião e os Rádio Macau nos seus inícios, os Ban não mais voltariam a explorar este tipo de linguagem. Acabariam por procurar outros mundos, outras aventuras; preferiram surrealizar com ideais sociais populares avançados.

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