A Invenção do Amor e Outros Poemas de Daniel Filipe - Fonoteca Municipal do Porto

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A Invenção do Amor e Outros Poemas de Daniel Filipe

Rui Cidra

Resenha

06 Outubro 2022

 Rui Cidra
A Invenção do Amor e Outros Poemas de Daniel Filipe (1973) emergiu nas vésperas do 25 de abril de 1974 como resultado do encontro do compositor e produtor José Niza e do ator e recitador Mário Viegas com a poesia do poeta português cabo-verdiano Daniel Filipe (n. Ilha da Boavista, 1925; m. Lisboa, 1964). Desempenhando a função de produtor discográfico na sucursal de Lisboa da Arnaldo Trindade/Discos Orfeu desde 1971, José Niza havia trabalhado em diálogo com Mário Viegas na produção de Palavras Ditas (1971), um primeiro disco que apresenta poemas declamados sob fundo sonoro, o que o produtor designou de “encenação musical” ou “sonora”. Mantendo esse conceito, A Invenção do Amor e Outros Poemas de Daniel Filipe recupera no Lado A uma gravação de Daniel Filipe a dizer um poema seu icónico da resistência ao Estado Novo e que havia sido editado cerca de 12 anos antes pela Orfeu, e no lado B outros poemas do autor ditos por Mário Viegas. O ator homenageava, deste modo, a título póstumo um dos seus poetas de eleição, falecido em 1964. O pianista Marcos Resende e o saxofonista e flautista Rui Cardoso foram convidados a improvisar musicalmente a partir da escuta dos poemas. Do mesmo modo, uma improvisação à guitarra por José Niza enquadrou sonoramente os poemas ditos por Mário Viegas, retirados quer do livro A Invenção do Amor e Outros Poemas (1961), quer de Pátria, Lugar de Exílio (1963), uma das obras censuradas do poeta no período. Apesar de apenas alguns dos poemas gravados por Mário Viegas e submetidos à censura prévia terem sido efetivamente censurados, o disco tem um cunho profundamente político. Em particular, o poema A Invenção do Amor dá forma poética e alegórica ao modo como os regimes ditatoriais vigiam a intimidade dos sujeitos e condicionam a expressão do afeto e do desejo amoroso. Dada a qualidade da poesia, o ambiente sonoro que a envolve, as interpretações individualizadas de Daniel Filipe e Mário Viegas, o disco constitui um importante documento sonoro sobre voz, poesia, resistência cultural e criatividade no período final da ditadura no país.

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